Três filmes e três abordagens diferentes sobre técnica versus dom

Revista Repeteco informa: o parágrafo a seguir contém ironia.
Deixe seu esforço falar por você. Se ainda acredita em si mesmo, basta treinar e tentar, repetidamente. A meritocracia existe, você ainda pode se tornar um bilionário utilizando apenas do seu trabalho, o sucesso é uma questão de mindset.
Se não tomar cuidado por onde navega seu algoritmo, o discurso apresentado pode parecer tentador, uma espécie de justificativa para qualquer tipo de adversidade. Não obstante, como o plano das artes não opera no vácuo, os diversos tipos de representação passam por ideologias, no sentido marxista da palavra. Se adquire sentidos e significados com base nas vivências de cada pessoa.
Uma interpretação inadequada de uma obra não é culpa apenas dela, mas isso não significa que ela seja inocente. Porém, via de regra, a alfabetização midiática peca ao carregar tudo que é arte em frustrações reais, um excesso que pode ser tão simples como a separação tosca entre “bem” e “mal”, ou no uso de má fé inerente do pensamento neoliberal, onde tudo é trabalho e dinheiro.
Neste pequeno ensaio, resolvi debater três obras que foram cooptadas pelo viés da meritocracia, na minha visão de maneira inadequada. Três filmes que tem nos seus personagens centrais o sonho do triunfo através do próprio esforço. Whiplash, Cisne Negro e Perfect Blue, três filmes que vivem aparecendo em canais de coach e gostaria de tirar do abismo algorítmico, pois não são histórias de sucesso.
Isso significa que apenas esses três filmes são exemplos do que quero destacar? Não, os exemplos são infindáveis, de todo tipo de profissão e diferentes escolas cinematográficas. Isso quer dizer que eu sou contra o sucesso através do trabalho? Não também, sou contra o discurso meritocrata, ora, justamente por trabalhar com artes sabemos que para algumas pessoas o caminho para os holofotes foi mais fácil. O problema é estrutural.
Resolvi começar pelo final. Pelo filme mais recente da lista, mas acho que é o exemplo mais trivial sobre como discurso narrativo é manipulável. Fato é que eventualmente nós, Revista Repeteco, teríamos que debater Whiplash. Se você não sabe sobre o que se trata, siga pelo subtítulo na seguinte explicação.
Andrew, interpretado por Miles Teller, é um baterista aspirante de jazz que estuda música em um renomado conservatório. Seu sonho é se tornar membro da banda principal daquela instituição e, para isso, precisa convencer o maestro Terence Fletcher, interpretado por JK Simmons. Andrew gosta do que ele faz, mas não é o bastante para que ele assuma uma posição de respeito na vida do professor.
Quando Fletcher escuta o jovem treinando, o chama para um ensaio, que transforma a vida de Andrew em um pesadelo que ele mesmo não percebe. O longa foi o primeiro dirigido por Damien Chazelle comercialmente, após o sucesso de um curta homônimo, que traz em sua descrição que o sofrimento é a alma da grandeza. Whiplash acabou sendo (ironicamente) um sucesso comercial e de crítica, visto que alavancou o diretor para um posto de importância em Hollywood, emplacando o aclamado La La Land apenas dois anos depois.
O sucesso do filme ofusca que o principal questionamento que deveria ser feito com o final dele (sem spoilers) é se vale a pena abdicar de tudo para o êxito profissional. O personagem de Simmons, o maestro Fletcher, lhe rendeu um Oscar de melhor ator coadjuvante naquele ano, na minha opinião, merecidamente. Mas vale falar mais sobre esse personagem.
Fletcher é um tremendo canalha com seus alunos. Ele exige perfeição de maneira nociva, cobra pessoas como se fossem máquinas, utilizando como pretexto o jazz. Um nome citado à exaustão é o de Charlie Parker, famoso saxofonista que revolucionou a música mesmo tendo vivido apenas 34 anos. Diz a lenda que Parker, em uma sessão de improviso, perdeu o ritmo e foi atacado por um prato de bateria de Jo Jones.
Em determinado momento ainda na primeira metade do filme, Fletcher arremessa um prato na direção de Andrew, a fim de “moldá-lo”. A cobrança é para que se atinja a frequência exata, ser perfeito em Whiplash é conseguir emular exatamente o que passa na mente insana de uma pessoa. Ao final, depois de reviravoltas e contradições, no que pensamos ser a libertação das correntes e a grande superação do protagonista, nos perguntamos: valeu a pena trocar o próprio bem estar para se provar?
Quatro anos antes de Whiplash, era vez de Cisne Negro ser lançado, dirigido por Darren Aronofsky, de carreira extensa e controversa em Hollywood, com altos e baixos, mas uma frequência constante de lançamentos. O cinema de Aronofsky, por mais que conte com uma amplitude de temas explorados, se destaca por abordagens surrealistas, como é o caso de, para além de Cisne Negro, Requiem Para um Sonho e O Lutador.
Protagonizada por Natalie Portman, a história traz a bailarina Nina, membro de uma tradicional companhia de balé em Nova Iorque, que finalmente tem sua chance em uma adaptação da obra Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Nina é uma garota dedicada no seu trabalho, filha de uma bailarina que teve que se aposentar para criá-la, mas a relação entre as duas nem é o ponto focal da narrativa.
Se existem filmes que, ao tanger sobre o feminino, se pautam na exaustiva relação entre mãe e filha, como Professora de Piano (2001), de Michael Haneke, Cisne Negro coloca frente a frente a relação entre uma mulher e ela mesma. Nina é escalada no papel de protagonista pela primeira vez, após ser assediada pelo diretor da companhia, mas ela não se dá nem tempo para se revoltar com a situação, sua cabeça pensa apenas no sucesso profissional.
Desde o primeiro momento que ela encara seu futuro, o próprio fluxo de pensamento começa a iludi-la, principalmente por colocar situações que a desafiam. Todos representam, à sua maneira, ameaças, que transformam a experiência cinematográfica em um constante mistério: o que está passando aconteceu de verdade?
Nina se pressiona a ser perfeita para a apresentação, mas não basta apenas treinamento técnico para alcançar seus feitos. Ela decora todos os movimentos necessários para interpretar os personagens do balé, mas tanto o Cisne Negro e o Cisne Branco requerem algo além dos movimentos. Tem emoção, tem leveza, tem subjetividade que não estão escritos em nenhum roteiro. Se em Whiplash o maestro cobra frequência mimética, aqui a cobrança é pelo lúdico.
O que não deixa de ser fato é que quanto mais Nina busca ser perfeita, mais ela adoece, mais ela fica insana dentro dos seus próprios pensamentos. O final ambíguo não esclarece nenhuma dúvida de quem não gosta de cinema como uma ferramenta didática, mas é um prato cheio para a análise e repete a mesma pergunta de Whiplash: valeu a pena?
O último filme abordado é também o mais diferente dos exemplos, em mais de uma frente. Perfect Blue, dirigido por Satoshi Kon, é uma animação japonesa lançada em 1997, com uma pegada mais voltada para o thriller e o terror. O filme é diferente tanto nas suas linguagens, idiomática e cinematográfica, quanto na vertente de perfeição abordada.
No filme, Mima é a protagonista em busca da perfeição, mas ao contrário do padrão de êxito dos filmes norte-americanos, em Perfect Blue a personagem está focada em agradar os outros, deixando ela mesma doente com sua repentina mudança de direções: a troca da música pop para séries de TV e uma carreira cinematográfica.
Mima tem uma voz interior que representa ela mesma, arrependida dos rumos que sua vida tomou, com vergonha dos atos cometidos. Ela também tem um perseguidor, nos moldes de um stalker, que escreve em um site dos primórdios da internet uma espécie de diário de Mima, imputando pensamentos da agora atriz como se ela fosse a interlocutora. A existência de um alter ego no mundo dos espelhos, aliás, gera comparações constantes da animação com Cisne Negro, que só seria lançado mais de 10 anos depois.
O caminho do sucesso que faz com que Mima se torne outra pessoa a transforma numa versão dissociada de si mesma, principalmente após concordar participar de uma cena de TV em que é abusada, pensando na vergonha que seus entes queridos vão ter ao vê-la naquela situação, mesmo que encenada. Chega em um determinado momento do filme que não sabemos mais quem está no comando das ações, assim como Cisne Negro, que vai em uma direção surrealista mais lapidada para o cinema hollywoodiano.
Escrevendo para a Revista Espetacular, Bianca Lais em sua análise de Perfect Blue evoca o sociólogo Richard Sennett, que tem um trabalho sobre identidade e personalidade, para dizer que o filme “demonstra o quanto o esvaziamento de si mesmo para se moldar aos desejos alheios é capaz de levar alguém a se perder em sua própria performance do “eu”. Mima nunca foi ela mesma, seja como idol, seja como atriz”.
Três filmes, três histórias, três possíveis erros de interpretação. O que gostaria de expressar ao trazer estes três bons filmes é que independente de quanto suas vivências te moldem para acreditar em algo, é impossível ser alguém isento de opiniões e, principalmente, de imperfeições.
Sei que não tem nada a ver, mas quem vos escreve é muito fã de futebol e ainda está muito triste com o fim da Copa do Mundo, então acredito que cabe a discussão. Um dos protagonistas do torneio (novamente) foi o argentino Lionel Messi, que por muitos anos foi comparado com o português Cristiano Ronaldo. Independentemente da sua opinião sobre quem foi ou é melhor, muitas pessoas que se consideram letradas no esporte proferiram argumentos de que Messi teria o talento enquanto Cristiano o esforço. Falácia.
É impossível carregar as coisas apenas com talento, isso se aplica a qualquer esporte, arte ou profissão. O que não podemos nos enganar é que a perfeição existe e que isso elevaria alguns perante outros. Os discursos neoliberais de competição e “merecimento” escondem algo trivial para o funcionamento de uma sociedade: cada um tem suas qualidades e defeitos.
Os protagonistas de Whiplash, Cisne Negro e Perfect Blue buscam a todo momento esconder quem eles são de verdade nos seus objetivos, que fazem os mesmos questionarem quem são eles. Perfeição não existe, talento é subjetivo e mérito é desigual.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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