Perspectivas de um evento underground de Curitiba e de uma juventude que pede passagem, mas não licença

No dia 19 de setembro, o Camaleão Cultural recebeu a segunda edição do Hemorragia Fest, festival dedicado à cena de música independente de Curitiba. Na ocasião, participaram novas e velhas bandas de grindcore da cidade, como Crotch Rot, Anal Nekröze e Mürro, ao lado do surf punk da Vida Ruim, do blackened punk paulista da Dor e da mistura de gêneros que são a Look Into The Abyss e a Siszmo.
No texto de hoje, a Repeteco relembra o evento e aproveita para trazer mais perspectivas sobre organização de shows do underground, assunto recorrente por aqui.
Mesmo com o clima chuvoso, o público compareceu em peso e lotou o ambiente já para a primeira banda, a Siszmo, que performou seu segundo show com a vocalista Esttther Siempre. Como um verdadeiro abalo intra-gaico, a banda embalou todos para dançarem no ritmo de seus barulhos dissonantes e poética esotérica, conquistando a aprovação de uma plateia que pedia bis.
Depois foi a vez da Look Into The Abyss, o power duo de baixo e bateria que mistura screamo, grunge e hardcore para criar uma atmosfera imersiva, que até mesmo bandas com o dobro de membros sonham em atingir. Na sequência, a Vida Ruim trouxe a simplicidade e energia cativante do punk-rock, aliada a letras que criticam ditaduras e o status-quo do mundo atual.
E então, quem subiu ao palco foi o goregrind da Crotch Rot, essa que talvez seja uma das bandas mais explícitas e, ao mesmo tempo, politizadas do sul do Brasil, gerando uma mescla de sacanagem e escárnio com o conservadorismo — por mais que não dê para entender uma palavra do que o vocalista Hugo Muringa canta.
Por volta das 22h, a Anal Nekröze tomou as rédeas. E apesar do nome questionável, não a banda não brinca quando o assunto é dbeat, pig squeal e letras que lembram a juventude sobre a importância de métodos contraceptivos.
Em seguida, vimos a banda Dor, de São Paulo, conhecida pelo som metálico que mistura elementos do punk com o black metal e o death rock, pincelados com um pouco de dungeon synth para um resultado verdadeiramente sombrio.
E enfim, a última banda a se apresentar foi a Mürro, entregando um grindcore pesado, caótico, mas ao mesmo tempo sensível, reservando momentos para recitar poemas contra à violência doméstica (escrito por Kamilly Volpini) e o massacre na Palestina (escritos por Miguel “Nojera”).
A experiência do festival se estendeu a partir de algumas conversas, na perspectiva de público, produção e banda.
Miguel “Nojera”, baterista da Mürro, Granizo, e pelo menos outras três bandas, falou sobre os desafios de organizar shows desse porte.
Miguel “Nojera”: O Hemorragia surgiu em 2025 quando a Mürro tava começando e ainda não tinha muito palco pra tocar. A principal inspiração foi o Doomtown, mas a primeira edição foi feita daquele jeito bem DIY, da galera se juntando pra fazer funcionar. Já a desse ano deveria ser o rolê de lançamento do álbum da Mürro, então queria que fosse algo maior. Comecei a organizar o line e pechinchar com umas bandas maiorzinhas daqui da cidade, e também queria trazer alguém de fora, o que foi meu principal receio. Mas no fim a Dor topou e deu tudo certo.
Sobre as principais dificuldades de organizar um rolê, “Nojera” detalhou que o fato de trabalhar sozinho para mobilizar um evento foi o mais difícil, justamente por entender desde o início que se ele não fizesse as coisas, ninguém faria. Mas a satisfação de ver tudo se concretizando foi impagável.
Miguel “Nojera”: A maior dificuldade mesmo foi organizar tudo sozinho. Porque por mais que compartilhasse as ideias com o pessoal da banda, eu tomei mais a frente e sabia que tinha que resolver tudo na hora. Porque se ficasse pra depois não ia conseguir resolver qualquer problema. Mesmo assim, deu tudo muito certo e colou muita gente. Papo de mais de 150 pessoas. Todas as bandas tiveram um público ativo, desde o começo moshando, o que é meio surpreendente num rolê que acabou misturando tantos estilos. Como organizador, fiquei feliz de verdade. Tinha muito receio que não fosse funcionar, mas na hora sabia que ia dar certo. Fiquem ligados que os próximos serão nesse mesmo pique!
Mas afinal, talvez seja justamente graças a esse pique “tudo junto e misturado” que festivais como o Hemorragia, o Underground Fest e o Doomtown tenham tanto sucesso. Pois não parece que às vezes nos acostumamos tão facilmente a ouvir as mesmas bandas, a ver as mesmas pessoas, a dançar do mesmo jeito, que esquecemos que existem outros estilos rolando por ai? Estilos não necessariamente melhores ou piores que outros. Apenas diferentes.
Nem todo mundo gosta de moshar daquele jeito hardcore, assim como nem todo mundo quer ficar apenas se empurrando no velho pogo. E juntar essas coisas nem sempre acaba gerando um ambiente agradável. É quase como se fosse preciso disputar o holofote. Parece que às vezes precisamos de eventos desse tipo pra colocar a vida um pouco no modo aleatório, sem um botão de “pular faixa”, para nos tirar da zona de conforto. E lembrarmos que o mundo não gira só em torno da nossa panelinha.
Luz, que veio de São Paulo para prestigiar o rolê, contou que percebeu várias diferenças nesse sentido entre os rolês de lá e daqui de Curitiba. A começar pela junção de estilos que geralmente ficariam separados na capital paulista.
Luz: Em São Paulo, a cena de hardcore fica num canto, a de grind no outro e os punks em outro. Independente do que você quiser ouvir sempre vai ter algum rolê pra você ir no final de semana, mas cada um é meio separado. Isso que acontece aqui, de gente de diferentes estilos colar no mesmo evento, não costuma ocorrer muito em SP. Acredito que por conta do tamanho de Curitiba ser bem menor, o que acaba concentrando mais os rolês, mas também porque talvez as cenas daqui não sejam tão rachadas.
Não creio que haja uma única resposta para essa dúvida, mas definitivamente também não é como se todos os rolês da capital paranaense fossem exemplos de camaradagem e inclusão. E por mais que algumas produções se esforcem muito para proporcionar espaços plurais e diversos, essa tarefa é muito árdua e demanda reforço constante.
Esttther, vocalista da Siszmo, compartilhou a sensação de viver o Hemorragia Fest a partir do palco.
Esttther: Foi surreal tocar pra tanta gente. Do palco via que algumas cabeças balançavam. Outras se batiam. E eu, enquanto recém vocalista de uma banda que não consegue nem definir o que ela mesmo é, me sinto muito grata por ver pessoas curtindo o barulho, batendo o corpo pra uma banda que elas nunca viram antes. E por mais que algumas coisas tenham dado errado durante o nosso set, foi belo. Foi belo na feiura. O Hemorragia foi o que ele se propôs a ser mesmo. Um sangramento. Algo vivo. Morrendo né. Mas vívido.
Esttther foi uma presença marcante do rolê, para além de sua participação como vocalista da Siszmo. Foi mais de um momento em que ela teve o microfone em suas mãos e falou para a multidão presente no Camaleão Cultural.
Esttther: Houveram dois momentos em que eu discursei durante o rolê. O primeiro discurso foi a respeito da beleza que é ver tanta gente nova entrando na cena. Gente que traz muito vigor, que traz muito respiro das velhas caras do punk e do hardcore. E sobre como é muito feio quando alguém mais velho, que tá a mais tempo no rolê, tira proveito desse pessoal que ainda não têm tanta experiência. E eu senti a necessidade de gritar contra isso naquele momento. Porque é essencial que as pessoas se exponham, mas também saibam se preservar. É essencial que elas saiam de casa, mas possam voltar sem um trauma de vida. Que elas tenham uma rede com a qual possam contar, mas que também desconfiem das coisas. Não só na cena, mas na vida mesmo.
E a segunda vez foi pra ler um poema durante uma música da Mürro. A música em questão se chama Extirpe e fala sobre genocídio, sobre escombros, e sobre seres que param de respirar por causa de gente má. Acho muito importante ter esses momentos de denúncia nas gigs, porque é muito divertido pogar, ouvir música e beber com seus amigos, mas essa diversão não deveria te ausentar da realidade, não deveria virar sinônimo de alienação. Esses momentos devem ser um convite, pra todo mundo presente afundar os pés ainda mais no real. Mas não só no seu próprio real, como também no real de outras pessoas. Pois essas pessoas também morrem, também sofrem e também sangram. E graças à Mürro e algumas outras bandas, esse tipo de momento tem sido possível com mais frequência. Servindo praticamente como um convite à empatia. E se é no rolê que isso deve acontecer, é no rolê que vai acontecer.
Afinal, em tempos tão politicamente sombrios, em que o egoísmo e a intolerância tem invadido praticamente todos os espaços da vida social, inclusive shows, organizar um evento com uma proposta crítica, baseada na diversidade de sons, estilos e, principalmente, pessoas, é uma escolha que não deve passar despercebida.
Sabendo disso, arrisco dizer que em 2026 o Hemorragia Fest se consolida como um dos festivais mais interessantes do underground curitibano. Não porque vendeu muitos ingressos, mas porque se preocupou em tentar criar um ambiente acolhedor, diverso e acima de tudo seguro. Surgindo como uma promessa de renovação para essa cena pulsante.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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