Instrumentais, cores e tudo que se expressa sem dizer palavra

Estava eu relendo Susan Sontag e seu notório ensaio Contra a Interpretação, onde a autora argumenta que “forma” e “conteúdo” são indissociáveis na leitura de uma obra de arte, quando me deparei com um certo incômodo pessoal: acho que andei interpretando demais, tentando buscar demais em sentidos e explicações o que tanto gosto na música.
Na minha percepção, cresci vendo a música como “uma beleza que diz algo” e, a cada ano que passa, parece que eu e todos buscamos por cada vez mais motivos para nos identificarmos pessoalmente com cada obra que lança. Se amo tanto Is This It dos Strokes, é por ler em suas letras o retrato de uma vida urbana boêmia que se equivalia à nossa volúpia jovem adulta aqui em Santa Bárbara d’Oeste/Americana. Se amo tanto Ants From Up There do Black Country, New Road, é porque li na lírica caricata e ultra dramática do Isaac Wood vários encontros emocionais com minhas próprias tentativas de fuga existenciais.
Apesar disso, percebo que alguns de meus discos preferidos dos últimos 10 anos se tornaram um tanto fugazes às minhas palavras e descrições. Me faltam palavras para descrever o que há na sonoridade esquizofrênica e caótica de Iridescence do Brockhampton que tanto soa como um choque emocional para mim. Tenho uma dificuldade em convencer qualquer pessoa a escutar o subestimadíssimo God Save The Animals do Alex G pois tudo que consigo dizer é que “a mistura dos acústicos, dos sintetizadores e dos efeitos na voz nesse álbum me causam uma melancolia inexplicável”, algo que soa um tanto subjetivo demais e cuja nomeação de características não parece muito interessante nem condizente aos sentimentos da maioria. É também um pouco triste que eu nunca consiga expressar com palavras o quanto Only God Was Above Us do Vampire Weekend me transporta para um mundo vintage, mágico e caótico apenas com timbres estridentes psicodélicos misturados ao low-end de baixos acústicos e à versatilidade de pianos agudos.
Palavras, palavras, palavras. Palavras para descrever sons. Palavras usadas para tentar, em uma explicação em um enxuto texto, passar a mesma sensação de catarse emocional que esses lindos sons dessas obras me passam. No fim, minhas palavras são insuficientes para explicar as emoções sentidas. Corro logo para os apelos temáticos das obras e tento te convencer que as palavras usadas pelos próprios artistas nessas músicas são ainda mais interessantes que os meros sons que produzem. Parece muito mais fácil se convencer de que algo faz sentido para si quando há uma poesia declarada envolvida. Afinal, que personalidade pode ser expressa quando se posiciona os ouvidos para ouvir algo que não diz palavra?
Muita. E essa foi minha busca nesses últimos meses, na verdade, influenciado por algumas diferentes coisas… Primeiramente, o primeiro show do Godspeed You! Black Emperor no Brasil em toda sua história, que logo comprei sem nem conhecer direito a banda, pois tenho noção de que esse show não necessariamente exige conhecimento prévio para aproveitar a experiência. De qualquer maneira, fui atrás desse conhecimento prévio e, apesar de gostar muito da banda, me senti confuso em como explicar o que há de tão bom e tocante.
Segundamente, os textos Por que a música ambiente importa? da Giovanna Bohrer e o texto Num mar de canções do Enzo Schiffer, publicados aqui na Repeteco (oiiii, gente, eu me inspiro em vocês!!). O primeiro por conta, justamente, da explicação histórica do nascimento de um gênero musical baseado em ser plano de fundo do decorrer de nossas vidas. O segundo por conta de toda a estrutura de “diário” do texto e como isso me ajudaria a escrever algo que quero experienciar e não necessariamente entregar uma tese elaborada sobre.
Quis embarcar no mundo da “música instrumental”. Antes de tudo, é claro que a escolha desse termo é absurdamente arbitrária. Não estou falando de um gênero em específico, não estou falando de um modelo de uso instrumental específico e nem estou falando de músicas que implicam algum tipo de estrutura musical específica. É justamente essa a minha intenção. Como alguém viciado em procurar sentido em/com palavras, quis experimentar a música que não as contém. Ou, pelo menos, não as tem como ponto temático. Desde os irreverentes samples plunderphonics do The Avalanches, até o IDM contemplativo de Aphex Twin, até o ambiente meditativo de Tim Hecker e até o post-rock barulhento do Godspeed You! Black Emperor. Quis achar em meus sentimentos mais pessoais as qualidades que me levam a amar toda a construção sonora dessas músicas e o porquê. É como se fosse um treino, um workout da minha capacidade crítica e argumentativa.
Mais um último adendo: procurei, levemente de propósito, saber pouco dos artistas, de suas histórias e objetivos antes de escutar esses discos. Não queria ir longe em uma crítica profunda sobre suas obras, mas refletir um pouco sobre como eu me aproximaria sentimentalmente de suas construções sonoras e de como eu poderia descrever seus valores estéticos, para mim.
Conheci esse disco em 2021 pois foi um dos álbuns mais bem avaliados do Anthony Fantano naquele ano. O disco todo se baseia em uma melodia fixa que se repete durante todas as músicas sem variações evidentes, como se fosse uma constante base para o improviso de um jazz. Acima dela, realmente rolam improvisos! tanto do Pharoah e das cordas da orquestra, quanto dos eletrônicos do Floating Points. Tudo soa hipnótico, meditativo e, como a melodia que segura tudo é lenta, há uma calmaria contemplativa. Os momentos de catarse também não soam avassaladores, algo que me agrada. Amo catarses anticatárticas, como se mesmo a necessidade de liberar algo gritante não pudesse superar algum tipo de repressão humana inevitável.
Escutei esse algumas boas vezes, mas talvez a mais tocante foi na estrada indo de Santa Bárbara para São Paulo assistir o Touché Amoré. Sinceramente, senti algumas coisas lindas e grandiosas, junto de um curioso êxtase emocional passando em frente ao Jockey Club de São Paulo, que teve uma aparência um pouco mais peculiar do que o normal pelo fato de estar vazio, cinza e recebendo o peso de cada individual pingo de chuva que caía do céu. É um daqueles discos que te fazem pensar “uau, tudo é tão lindo e grandioso as vezes". Era um dia levemente frio, chovia e as ruas estavam parcialmente alagadas. Apesar de um tanto medonho, também era lindo.
Vendo a chuva, as ruas e todo o céu solidamente branco, senti um pouco essa sensação de incapacidade. O mundo está mudando, talvez para o pior, e podemos apenas observar. Mesmo com a “decadência” da cidade, os estragos que a natureza faz sem ideia alguma de seu poder continuam lindos… Grandes poças refletiam as cores mortas da cidade em uma linda cacofonia visual do cinza. E todos estamos tentando pular essas poças para chegar do outro lado da calçada, seguir a vida.
Talvez um grande motivador desse sentimento seja justamente o choque estético de sons que remetem ao passado, como o saxofone de Sanders e a orquestra, com os eletrônicos sutis e melódicos de Floating Points. O resultado é extremamente contemporâneo, lento e silencioso, me inspirando um conturbado sentimento de preocupação conformada, ou algo similar. Como um suspiro bem colocado depois que você lembra da fatura do seu cartão, por exemplo.
Não é inteiramente instrumental, afinal o disco todo conta com inúmeros samples de vozes, mas estas são usadas mais como instrumentos a fim de ocasionar uma amarra estética. Para além de ser um álbum divertido e dançante, ele é bastante meditativo. A sensação constante de passar por essa experiência do começo ao fim me soa nostálgica para além de minha própria época. Usando de vários samples e sonoridades retrô que mesclam o dance contemporâneo ao lançamento do álbum, em 2000, com a Disco e o Funk dos anos 70/80, me sinto como se eu estivesse em uma poltrona no meio da minha sala à la sonho americano enquanto desbravo perdidamente os canais da minha TV de tubo em busca de alguma soap opera ou de algum filme noir com sua belíssima femme fatale para assistir. Toda a tecnologia do sample utilizada aqui ocasiona em um vintage desbravatório, me soando um tanto como a saturação curiosa de presenciar o advento de novas mídias e novas formas de se contar histórias.
Toda a diversão presente nessas batidas acaba por resultar em momentos um tanto delirantes, onde o choque de tantas sonoridades diferentes ressoa em um tipo de loucura informacional. Não sei o quanto foi a intenção do grupo, mas a ideia de que o avanço na filosofia das mídias é algo um pouco chocante parece onipresente. Talvez, um sentimento que apenas um filme como I Saw The TV Glow já havia me passado, ou que apenas as madeiras rústicas daquele hotel de Twin Peaks me fizeram sentir.
Um dos primeiros discos de Ambiente e IDM que escutei, precedendo muito dessa minha nova busca. Me faz pensar o quanto a IDM parece sempre trazer consigo uma carga de futurismo, muito por conta de que o futuro idealizado por obras do século passado nunca nos foi alcançado. De qualquer maneira, a sonoridade desse álbum me lembra um cotidiano higienizado, talvez muito por conta da própria capa preta e branca e também por conta da calmaria, por vezes dançante, inerente dessas músicas. Pode parecer estranho e engraçado (e realmente deve ser), mas sempre me sinto no espaço sideral enquanto escuto esse álbum, preso em uma nave como a do Among Us, extensa e solitária, mas sem me importar com a solidão, que já me soa costumeira. Afinal, há trabalho a ser feito! Tomar café olhando o vazio da escuridão capturando os pequenos brilhos de estrelas ao redor, flutuando e tateando coisas na gravidade zero. Solitário, vazio, mas nunca exatamente deprimente. Talvez a palavra “solitude” descreva bem?
É muito curioso o quanto um álbum silencioso como esse consegue soar divertido e até mesmo dançante, onde cada pequeno elemento que entra contribui tanto para o andar das canções que sua pequenez sonora soa gigantesca. É simples de um jeito complexo de entender de fato.
Mais recentemente, comecei a lembrar de escritórios de trabalho, talvez por sentir que seu minimalismo me lembre os ambientes esparsos de uma série como Severance, ou o vazio compromissado de um Stanley Parable ou dos jogos Portal, mas também sem toda sua brutalidade temática. É como se as músicas me remetessem a um futuro de utopia capitalista (seja lá qual é a utopia real desses tais), onde a mecanização do dia a dia e a pureza de sua incessante falta de cor me lembrassem o conforto - improvável - de um cotidiano cíclico. Talvez um imenso luto por não termos alcançado tal futuro glorioso e límpido que nos esperava, ao menos no imaginário da época.
Desbravei alguns álbuns do artista, como Virgins e Ravedeath, 1972, mas esse foi o que mais me causou interesse contínuo, pelo menos até agora. O som de Tim Hecker, caracterizado como ambiente e drone em todas suas repetições e texturas que fazem do ruído mais um elemento de meditação, me soa amplamente pós apocalíptico. É como desbravar um ambiente vasto, com todos seus ricos vestígios humanos mas sem traço algum de humanidade nem de vida. Apenas você, o aventureiro solitário, de frente às vastas construções que guardavam vidas e momentos de conforto, terrenos imensos e vazios e o som do vento e das construções rangendo frente à interminável existência do vento. Sem muita destruição, na verdade, apenas vazio. Passando por criações subjetivas do que se imagina de memórias naquele lugar. A repetição é melancólica e potente.
É lindo também como todas essas texturas sonoras sugerem o abstrato, algo pouco alcançável que se forma no ar acima de si, visível como se estivesse se esfregando na sua cara mas impossível de tatear.
Alguns dos sons explorados por Tim aqui também me fazem imaginar a visão focada nas pequenas coisas da natureza: Gotas escorrendo de pétalas de flores, a água se mexendo ao sentir o peso de uma folha que cai elegantemente até ela, e por aí vai. De alguma maneira, os glitches inseridos nessas sonoridades que parecem tão naturais me remetem muito ao analógico: a estática de sintonias de rádio perdidas e a uma impossibilidade comunicativa carente. É como se todas essas imagens da natureza descritas acima nos fossem transmitidas a partir de uma imagem em 480p, onde você entende a beleza mas vê ela através de um filtro de qualidade, impondo distância. Talvez seja o disco mais solitário de todos esses que me propus a desbravar.
Álbum do ano passado desse artista que admirei de longe durante tanto tempo, mais familiarizado por suas trilhas sonoras em filmes como Joias Brutas e Marty Supreme ou com o conhecimento de que ele chegou a produzir algumas coisas junto do The Weeknd.
Apesar de caracterizado também como música ambiente e de também parecer emular sons que parecem como “o futuro”, Daniel Lopatin (nome do artista) me soa mais dramático e colorido que seus comparsas de gênero, ao menos nesse projeto. Suas texturas roubam mais a atenção do que o álbum médio de ambiente, com sonoridades mais intrusivas, altas e abrangentes. Isso não é uma crítica negativa! Creio que tudo isso me lembre um bom tanto de cidades cyberpunk, como no próprio jogo ou em Blade Runner, com outdoors 3D gritando na sua cara enquanto caminha pelas ruas sujas de alguma grande capital suja e desorganizada.
Tive uma experiência bem pessoal com esse: esperando um blablacar do lado de fora do shopping da minha cidade, decidi colocar esse álbum para tocar no meu fone e ir ao banheiro. Tarefa simples, cotidiana, eu sei, mas fez entender bem porque o Oneohtrix é escolhido para fazer trilhas sonoras. Essa mera experiência me soou tão imersiva, fez parecer que meramente andar pelo shopping era fazer algo maior que eu mesmo. As luzes branquíssimas, os manequins gritando pela minha atenção em suas camisas polo e calças jeans, o teto alto e cheio de tubulações de ar condicionado lá em cima.
Foi lindo, na verdade. Me fez perceber que, realmente, a música ambiente é feita para te acompanhar em momentos cotidianos casuais, sempre aumentando um pouco sua experiência sensorial com os mesmos. Não sei se foi exatamente essa a intenção do Daniel aqui, mas fez eu me sentir numa viagem particular.
Talvez o álbum mais óbvio dessa lista, mas tem como não ser? Apesar de eu não ser o maior entusiasta do post-rock, os ecos da influência de Godspeed You! Black Emperor sempre me foram sentidos, mesmo que de longe. Sua maneira seminal de compor ápices sonoros e músicas longínquas onde cada minuto de calmaria importa para te levar a um novo topo sentimental imprevisível nunca me foi desconhecida, apesar de exigir um tanto de atenção que eu não estava tão disposto a dar antes.
Tive uma experiência bem pessoal com esse também: No último mês de turnê da minha banda esse ano, me coloquei para ouvi-lo enquanto o avião decolava rumo ao norte. Acontece que eu tenho um certo medo de altura, sabe? Sei que aviões são super seguros, mas a ideia de estar em uma caixa contida a incontáveis pés acima do céu e com assentos mais desconfortáveis que um ônibus da Buser me soa extremamente claustrofóbica e quase suicida.
Enquanto o avião decolava, meus ouvidos iam se embaçando e eu alternava entre olhar para a janela com uma curiosidade mórbida e evitar a vista com puro medo, a música “Storm” foi crescendo lentamente até chegar em sua linda catarse. De repente, comecei a sentir algo estranho: a sensação do TUDO. Bem dramático, né? Só me pareceu como um desses momentos em que a vida toda passa nos seus olhos e você deixa de ter medo, não por achar que você não vai morrer ali naquela lata de sardinha voadora da Azul, mas mais porque morrer deixa de importar. Claro que eu não quero morrer, mas se eu morrer, eu já fiz tanto, alcancei tanto…
Talvez a maior magia desse álbum seja reparar em como os ápices são construídos. Em momentos, é absolutamente lindo e gigantesco e em outros momentos é até desconfortável sonoramente, mas sempre com uma diversão incessante inerente da virtuosidade instrumental da banda. Comprei o vinil desse disco, que se manteve em uma surpreendente rotação aqui no meu quarto enquanto eu estudava. Creio que no momento minha faixa favorita seja “Static”, justamente por ter em seu ápice uma sensação de grandeza mais temível, mais sombria e misteriosa, trazendo com si sensações mais mistas e “apimentadas”.
Creio que seja difícil não comentar das ambições políticas do grupo, algo que, sinceramente, me passou um tanto batido. Mas os trechos com falas que rolam ao longe me soam como acréscimos de textura tão pessoais, principalmente em seus momentos mais analógicos, onde a estática e os anúncios de rádios contribuem para essa sensação apocalíptica. Diferente dos outros discos que me levavam a mundos diferentes e distantes, esse aqui pareceu me revelar a “Dor Cruel da Verdade Absoluta”, ou algo imenso do tipo. É realmente tudo bem dramático.
Esses caras me fascinam completamente. Afinal, de fato, tem algo de mais punk do que a brincadeira com o formato musical que o Nigeria providencia? Com uma proposta que afasta seus assíduos ouvintes das plataformas digitais e os aproxima de seus shows que contam com improvisações incessantes e com performances de dança e tudo o mais, é lindo ver o quanto a postura subversiva do grupo ganha força ao remar contra a maré da indústria. É como ver as leis da gravidade sendo contrariadas pela mais pura diversão.
O novo álbum do grupo, Ambiente Jazz, tem 3 horas de duração e se aproxima muito mais da música ambiente, do post rock, do jazz, do noise ou de qualquer outro nome que seja possível chamá-los. Com texturas instrumentais lindas, sutis, ápices bem contidos, é tudo extremamente meditativo. Os títulos das músicas são sugestões de seus cenários, onde o transporte pela capital paulista e as aventuras dos “rolês” parecem plano de fundo para as sensações internas de si. A duração de cada faixa parece estender essas sugestões ao além do imaginável.
Com um destaque bem peculiar para a faixa “Dylan Raider”, cujo instrumental é base para uma conversa que parece bem pessoal e acontece em um celular, tomando temas como política, paternidade, skate e por aí vai. É um projeto um pouco difícil de decifrar, mas quem é que precisa decifrar algo? É lindo e é nosso.
Conheço hateyourmusic já faz alguns anos, mas sem nunca desbravar propriamente nenhum de seus álbuns. Depois de um certo tempo que soou como um hiato, o projeto voltou esse ano, com o disco este que vos apresento.
A proposta aqui parece bem diferente de tudo que o artista já se propôs a fazer: o lançamento circula por entre o noise, o ambiente, a IDM e até a dance. Esse é um disco que me faz reparar o quanto vejo cor nos sons de acordo com o que a capa sugere, uma vez que todas as sonoridades aqui presentes ainda me parecem soturnas, distanciadas e, realmente, “preto e branco”. Grande parte da diversão de se escutar esse disco está nessa quebra da estética escura ocasionada pelas intrusões de samples que soam como pequenas piadas para quebrar um pouco a tensão sentimental que essas músicas podem gerar. Me lembrou um bom tanto do disco Untrue, do Burial, e de todas suas texturas sonoras que me pareciam como festas noturnas no asfalto e no concreto.
O resultado é lúdico e etéreo, me lembrando um pouco da sensação pixelada que um jogo como VA-11 Hall-A me proporcionou tão bem. Parece que o cinza chapado de estruturas brutalistas de fato nos revela um tanto sobre a face do futuro.
Eu sei que grande parte do apelo da música como arte está em sua recorrência: A facilidade, hoje, de sua reprodução em qualquer ambiente onde se esteja, em que a repetição de cada faixa te deixa cada vez mais inserido nela, levando a uma repetição afetuosa que permite que uma obra exista constantemente em você, sempre sendo lembrado de sua existência. De qualquer maneira, a música pop parece existir também em todas suas sugestões: músicas tristes com letras sobre términos amorosos provavelmente serão repetidas e para sempre lembradas nos momentos em que você… termina um namoro. Músicas de cunho político e revoltoso serão repetidas e postadas nas redes em momentos de eleição ou de agitação gerais. E por aí vai.
Esses projetos com foco instrumental, apesar de conterem sugestões em sua forma, sugerem de maneiras diferentes: Me parece que a falta de letras e sua natureza estrutural mais amórfica permitem que os mundos propostos partam mais de todo o resto que circula a música, seja sua capa, o nome das músicas ou até mesmo o meu próprio cotidiano como ouvinte.
Existe sim uma indicação do sentimento, mas não de sua locação ou de seu contexto.
Isso foi um tanto fascinante para mim. Ver as paisagens pelas quais eu passava no dia a dia se transformando em planos de fundo para as canções, ou vendo as canções se transformando em planos de fundo para as paisagens, sempre em intercâmbio. Mais do que nunca, me propor a estar imerso nesses discos cresceu um tanto tudo ao meu redor. As coisas pareciam mais importantes, imponentes, presentes, gritantes.
Um bom tanto desse sentimento vem da sensação de se estar vivendo com uma “trilha sonora”, onde meus olhos se assemelhavam mais à câmeras e todo o mundo parecia mais cinemático, se mostrando mais para mim.
E também foi bem legal sentir que acabei criando esse hábito de, de fato, ouvir música ambiente/IDM/post rock em momentos do meu dia a dia, mas principalmente nos momentos de foco. Minhas leituras diárias se entrelaçavam aos sons de Tim Hecker e Oneohtrix Point Never e até mesmo em outros álbuns que não desbravei o suficiente a ponto de inserir nessa lista. Eu também tinha a constante sensação de que qualquer viagem e suas vistas da janela poderiam ser engrandecidas de acordo com o disco que eu colocasse para ouvir.
Sobre minha capacidade de discorrer sobre as músicas… Como você deve ter reparado, me pareceu muito mais fácil dizer sobre o que tudo me evocava na imaginação. Todos esses sons eram acompanhados por imagens muito específicas e eu não sabia discernir se elas diziam mais sobre a música ou sobre mim. Dá também um medo de que, caso você, leitor, não conheça algum desses álbuns mas se interessou por ouvi-lo, seja contaminado sensorialmente pelas minhas descrições. Como para mim estar nesse local de constante “criação subjetiva” foi muito interessante, não gostaria que você perdesse essa capacidade.
Talvez essa tenha sido a principal diferença: Quando eu escuto um The Strokes ou um BC,NR da época do Isaac Wood, meu interesse se direciona em como ELES constroem esses ambientes emocionais específicos com a poesia de suas letras. Quando escuto um The Avalanches ou um Floating Points, meu interesse se direciona em como eles ME direcionam a criar esses ambientes específicos.
Foi uma experiência bem divertida e, no fim das contas, nem sei se ela faz tanto sentido (kkkk). Mas, de qualquer maneira, me permitir me aproximar da música de uma maneira diferente foi algo que reacendeu algumas chamas emocionais que já estavam se entediando aqui dentro.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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