Um pequeno vendaval sobre o blockbuster favorito do inverno de 2026

A menos que você esteja morando debaixo de uma pedra nos últimos meses, chegou ao seu conhecimento o lançamento do longa A Odisseia, adaptação multimilionária da clássica obra de Homero, que estreou em julho e segue em cartaz por cinemas de todo o Brasil. Para além do frenesi causado em salas IMAX e o futuro murmúrio em época de premiações, pois obviamente será um dos indicados ao Oscar e toda discussão voltará para incomodar, existem alguns pontos de debate que queria trazer aqui, não necessariamente pelo filme, mas pela reação de uma pessoa muito específica.
Emily Wilson é uma professora universitária, especialista em clássicos que, acima de tudo, foi responsável pela tradução de 2017 da Odisseia, de Homero, a primeira mulher a realizar tal feito. Ela também lançou uma aclamada versão da Ilíada em 2023. Ambas as obras foram compostas a quase 3 mil anos atrás em grego antigo, então é válido de tempos em tempos pegar a versão original para averiguar alguns aspectos, visto que o trabalho de traduzir uma língua morta obrigatoriamente pede uma apropriação de sentidos e sentimentos.
Quando chegou o momento tão aguardado do lançamento do filme, a tradutora mais recente da obra tomou um espaço na London Review of Books para fazer uma crítica ao mais novo filme de Christopher Nolan, embalado de sucessos comerciais e com um orçamento de cerca de 250 milhões de dólares. Em resumo, ela não gostou do que viu, mas antes de transformar esse texto em um debate sobre opiniões, precisamos ampliar o escopo sobre adaptações literárias.
Não é segredo, para quem gosta do audiovisual, que a parte escrita é tão importante quanto a imagem, mesmo que não fique a mostra. Todo filme (ou quase) tem um roteiro para chamar de seu, que inclue não só falas, mas descrições de cenário, de câmera, de configurações de set diferentes. O roteiro orienta toda a produção, então por que não utilizar uma estrutura já “pronta” para facilitar o trabalho? Um livro narrativo precisa instruir o leitor a conhecer um mundo todo através das ferramentas a sua disposição, logo, não é incomum entender tais estruturas cinematográficas como oriundas da produção literária.
O que quero dizer é que desde que o cinema se tornou indústria existe uma “fissura” em pegar livros prontos e transformar em filme. Todo ano acontece, basta dar uma passeada na livraria da sua cidade que você verá uma seleção de obras com adesivos promocionais como “o livro que inspirou o filme”. Existem exemplos mais claros — como os infantojuvenis Harry Potter e Jogos Vorazes, em que tudo que está escrito se transcreve de maneira exata no audiovisual — e exemplos de adaptações com liberdade criativa por parte da equipe do filme, como algumas das obras de Stephen King, que raramente ganham as telas em sua integralidade.
Existem ainda filmes que se inspiram em estruturas literárias, mas apenas para a construção de narrativas. Isso acaba sendo mais comum em peças de teatro, que não deixam de ser obras literárias, como os clássicos de Shakespeare, mas qualquer história de vingança e injustiça tem, em via da intertextualidade, um pouco de Conde de Monte Cristo. Falo disso pois, toda jornada de uma pessoa passando por algum perrengue, algo que muda completamente a vida daquele personagem, é uma odisseia; se tornou um substantivo.
Para entender como essa intertextualidade funciona, O Senhor dos Anéis foi lançado primeiro como uma trilogia de livros de J. R. R. Tolkien, escrita no período da Segunda Guerra Mundial. O protagonista, Frodo, é enviado em uma missão que muda sua vida para sempre, algo que pode ser descrito como uma odisseia. Senhor dos Anéis eventualmente virou um grande produto, ganhando principalmente uma trilogia de filmes, criticamente aclamados, que viraram mais três filmes de O Hobbit, obra do mesmo universo da Terra-Média. Posteriormente, se transformou em série, desenhos animados, inúmeros videogames e parte intrínseca do cânone cultural.
Agora, entendendo a influência da obra de Homero, podemos falar sobre ela diretamente.
ALERTA: Os parágrafos a seguir contém spoilers de A Odisseia, de Homero, obra com quase 3 mil anos. Se você se incomoda com isso, pode pular os próximos cinco parágrafos.
Não existe uma data exata para a escrita da Odisseia. Estima-se um período entre o século 8 e 6 antes de Cristo, e cabe ressaltar que não se trata de um livro, mas da união de 24, em 12.109 versos que estão compostos em hexâmetro dactílico (que não vou nem tentar explicar o que é). Fato é que a história é centrada em Odisseu (ou Ulisses, a depender de sua tradução), o rei de Ítaca que parte para a guerra de Tróia ao lado de Agamenon. Odisseu é um dos responsáveis pelo famoso cavalo de Tróia, que foi o fator decisivo para o fim da mesma guerra.
Odisseu começa sua jornada de retorno a Ítaca, onde deixou sua mulher, Penélope, e seu filho, Telêmaco. Ao contrário do esperado, a viagem de volta para casa acaba tomando muito mais tempo — e é essa a história que dá nome a Odisseia. Ele e sua trupe saem se vangloriando dos feitos de guerra, cometendo saques a ilhas amigas de Tróia. Eventualmente, chegam à ilha que vive Polifemo, ciclope que os aprisiona em sua caverna. Odisseu então consegue bolar uma saída que consistia em intoxicar o ciclope para cegá-lo, que ultimamente funciona e, novamente, infla o ego do protagonista, que pede para o gigante falar para todos que conhece que Odisseu o havia cegado. O que ele não sabia é que Polifemo era filho de Poseidon, deus do mar.
A temática central da demora em voltar para casa na Odisseia está na ira acumulada dos deuses da mitologia grega, que são parte intrínseca de toda narrativa. Odisseu e seus homens enfureceram Poseidon, que fez de tudo para impedir que eles voltassem para casa. Eles enfrentam a fúria do mar, o encantamento da deusa Circe, que transforma aqueles homens em porcos (com exceção de Odisseu, que é ajudado por Hermes mas se torna amante de Circe por cerca de um ano), a “borda” do oceano, onde pode falar com os espíritos mortos de Agamenon e Aquiles, o canto das sereias, o redemoinho Caríbdis e o monstro de várias cabeças Cila.
A tripulação de Odisseu então é obrigada a parar em uma ilha que contém o gado sagrado do deus sol Hélio, e, mesmo instruídos a não comerem, acabam se alimentando daqueles animais, que gerou castigo divino eterno, em que apenas Odisseu sobrevive e vai parar na ilha da ninfa Calipso, onde eles ficam juntos por 7 anos na promessa de imortalidade. Quem salva Odisseu de Calipso é Zeus através de Hermes, após súplica da deusa Atena, mas Poseidon destrói sua jangada após a entrada no mar. O herói da jornada, então, nada até a terra dos feácios, onde a princesa Nausícaa o leva para a corte e ele se destaca nos jogos atléticos. Após escutar um bardo cantar sobre os feitos da Guerra de Tróia, Odisseu se revela para os feácios e eles o levam até Ítaca de volta, onde sua esposa o espera e mais de 100 pretendentes aguardam um novo casamento.
Logo na sua chegada, Atena o disfarça de pedinte para não ter sua identidade revelada e ele consegue ajuda de Eumeu, seu antigo caseiro cego que não sabe a quem estava ajudando. Odisseu se revela ao filho e convence sua esposa a se mostrar pronta para casar novamente com o pretendente que primeiro acertasse seu desafio: estirar o arco de Odisseu e atirar uma flecha exatamente no alvo. Após todos aqueles pretendentes que zombavam de Telêmaco e não respeitavam Penélope não conseguirem nem montar o arco, Odisseu, vestido de pedinte, pede uma chance e consegue estirar e atirar o arco, revelando a todos no recinto que estava de volta para seu posto de rei. O que acontece a seguir é um banho de sangue, em que o protagonista mata todos aqueles contra seu retorno e depois prova para Penélope ser ele mesmo e não um impostor.
Estabelecendo um diálogo com A Odisseia (2026), é fato que sua escrita não corresponde a completude da obra escrita por Homero e, muitos dirão que não existe problema nisso. De fato, se pensarmos no longa apenas como a inspiração na obra milenar, certamente não encontraremos problema em não corresponder certas expectativas. Entretanto, para além da discussão de entregar ou não entregar entretenimento, que para muitos é a razão principal para consumir um filme, a adaptação do diretor e roteirista se choca com algo muito maior que os efeitos especiais, o elenco estrelado e os milhões envolvidos na sua concepção: nós gostamos ou não gostamos de consumir um conteúdo sem alma?
Pode parecer exagerado, porém se desviarmos o olhar da produção e direcionarmos ao roteiro em seu cerne, existe uma falha imensurável no roteiro norte americano: a pobre representação do mundo grego e a falta coragem para comunicar ao público a história como ela é.
O Odisseu estrelado por Matt Damon é um herói caído, que se veste das dores e das desonras da guerra, envolvido em uma jornada de desprezo pelo mundo que conquistou e um esquecimento milimetricamente colocado, ao que diz respeito a sua estadia na ilha de Calipso. Ao contrário da ideia de herói que é construída nas narrativas gregas e romanas, desse indivíduo que domina e, ao dominar, recebe a glória por sua batalhas, damos de face com o completo oposto na caracterização do herói de Nolan. Para essa adaptação, os dilemas morais são dispostos em todos os espaços narrativos e, para que esse Odisseu possa nascer e se recriar nas telas do cinema, é necessário não apenas um algoz, mas o arrependimento que justifica a criação de um novo mundo.
Antes astucioso e, muitas vezes, oportunista, o personagem homérico não tem suas características exploradas na releitura moralizada. E, se a ideia de cenas sanguinolentas e notoriamente pesadas não agradaram o diretor, por que não manter o humor, a magia e a leveza da obra? Porque somente tirando isso, podemos encontrar a intenção primordial do diretor: apresentar um homem, supostamente heróico e que, ao renegar suas batalhas, também renega aos seus deuses, suas glórias e sua identidade histórica.
É preciso ser dito que a ausência das figuras divinas é quase que uma afronta ao poema homérico. A moral e o arrependimento transformam uma obra de até 800 anos antes de Cristo em um filme quase cristão. Atena é Zendaya, que na verdade é uma representação de uma vítima de Tróia que toma forma de Atena. Circe se parece mais com uma bruxa do que uma deusa; Hélio e Poseidon nem tem representações; tampouco é citado que Polifemo é filho do deus do mar.
A tradutora Emily Wilson, aquela que citei anteriormente, começa sua crítica dizendo que, ao contrário de outros filmes do diretor, ela conseguiu até se divertir um pouco, muito pelo referencial teórico do poema grego antigo. Mas as aventuras didáticas daquele Odisseu teriam a mesma profundidade de um show de fogos de artifício de 4 de julho (dia da independência americana). A montagem multimilionária impressiona tecnicamente com o formato IMAX, mas do que adianta isso se ele desvirtua toda a obra? Minha grande vontade é de colocar o texto de Emily Wilson na íntegra, pois nunca cheguei perto de escrever algo tão bom quanto. Como não posso fazer isso, separei alguns trechos que elucidam o cerne da questão (em tradução própria).
“A epopeia homérica já era uma adaptação. O poema utilizou uma tecnologia relativamente nova – o alfabeto escrito – para reelaborar tradições míticas existentes, remodelando a história do retorno de um veterano para casa, de modo a ressoar com as complexas preocupações dos falantes de grego no período arcaico, uma era de migração, colonização e urbanização. Algumas comunidades gregas do século VII a.C. eram governadas por uma oligarquia, outras por um único homem. O poema traça a tensão entre as necessidades e os desejos de grupos de homens – os companheiros de Odisseu ou os pretendentes de sua esposa, Penélope – e os de um único homem poderoso e astuto, que deseja governar a todos e conquistar fama eterna para si. Em um período de mudanças culturais e tecnológicas, explora a fantasia de voltar no tempo e no espaço, ao mesmo tempo que mostra seus perigos e custos. O poema aborda os desafios de encontrar estranhos, de entrar em suas casas e acolhê-los ou rejeitá-los na própria. As ressonâncias contemporâneas são óbvias e o filme de Nolan alude a algumas delas, de maneiras interessantes, ainda que dispersas.”
“A representação de Odisseu como um senhor da guerra relutante torna o mundo imaginado pelo filme um completo absurdo. Não nos é mostrado que a guerra ou o assassinato são ruins, apenas que homens bons às vezes se sentem mal por isso – um ponto muito diferente. Qualquer representação séria de violência, antiga ou moderna, deve mostrar as perspectivas das vítimas, bem como dos perpetradores, e os poemas homéricos cumprem esse requisito com facilidade – mas Nolan não o faz. Os troianos são desumanizados por suas máscaras; não sabemos o nome ou o rosto de nenhum deles.”
“A Odisseia de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. Não oferece nada de convincente sobre o tempo, a memória, a história, a guerra ou sobre a relação entre o glorioso retorno de um guerreiro e a vida de sua família, adversários, camaradas, amigos e vizinhos. Falta-lhe profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é artificial. A escrita é péssima. Nenhum dos personagens apresenta motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo e toda a comida parece horrível.”
Por fim, destaco que, com tudo isso que foi mostrado, A Odisseia (2026) não é um filme ruim, ele apenas não faz jus a obra original com este nome. Se, hipoteticamente, Nolan lançasse esse mesmo filme com o nome “Uma Odisseia”, seria definitivamente mais apropriado e menos criticado. O diretor fez o produto que se esperava dele, um blockbuster cheio de atores e faces famosas, que venderam muitos ingressos e ainda geram bilheteria mesmo dois meses após o lançamento.
Em uma tentativa de buscar positividade no final do texto — olhando o copo meio cheio por um instante — acredito que muitos, como quem vos escreve, entraram na sessão de cinema sem conhecer direito o poema e os trabalhos de Homero e sairam querendo ler o livro, mesmo sem entender direito o que é um hexâmetro dactílico. No fim, guardo com carinho a edição que comprei no sebo, mesmo esta não sendo a mais apropriada por não estar dividida em cantos.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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