Resp3x, transformações, e o novo álbum 'AINDA VIVO'

Consigo lembrar das vezes em que tentei descrever a Resp3x para quem desconhecia a banda curitibana. Falhando em encontrar referências concretas, diretas, ou palpáveis, já apelei a abstratas misturas de gêneros: ‘pense em um post-hardcore-experimental com influências de hip-hop aqui e ali’. Também já usei de todos os sinônimos para intenso/enérgico/frenético/vivo. Mas, ultimamente, ando simplificando o processo: ‘Basta vê-los ao vivo. Você vai entender’, é o que digo.
E, de fato, esse pode ser o melhor dos conselhos, já que o que não faltam são oportunidades de vivenciar um show da Resp3x em Curitiba. Mesmo indo duas, três, ou dez vezes, ainda vai ser possível — e fácil — se entregar à presença de Lorenzo, Niko, Amanda e Gmax (ou Zago, que ocupava a bateria até o começo de 2026).
Para os não-habitantes da capital paranaense, que não podem se dar ao luxo de conhecer a banda pelo caminho empírico, dedico algumas próximas palavras a uma tentativa singela de descrever a Resp3x e o que andam fazendo. Para um panorama completo, no entanto, não deixe de ler a entrevista da banda à Repeteco, na ocasião do lançamento do EP Cotia, em 2025.
As experimentações começaram em 2020, antes da Resp3x existir como banda. Resp, ou Lorenzo, cantor e compositor curitibano, já vinha construindo ao longo de três álbuns e vários singles um território próprio onde rap experimental, hip-hop, rock alternativo, post-hardcore e música eletrônica convivem sem muita preocupação com fronteiras.
Em 2023, a incorporação da 3x acrescentou a esse universo aquilo que talvez sempre tenha sido difícil de registrar nas gravações: a presença física do palco. As músicas ganharam corpo, peso e uma urgência particularmente difícil de traduzir em palavras — e que, desde então, parece ser parte fundamental do que a Resp3x se tornou.
Agora, o projeto ganha uma nova dimensão. Nessa quinta-feira (24), dão vida ao primeiro álbum, AINDA VIVO, e a Repeteco teve o prazer de escutar às faixas com antecedência.
Os sons chegam, crescem, explodem. É como o encapsular da adrenalina, do suor, da energia, da crueza. O flutuar de um show talvez não visto à beira do palco, mas de longe — a passagem do olhar por cada instrumento, a atenção às letras, o observar da resposta do público. Ou ao menos é isso que me permito imaginar à medida que as faixas de AINDA VIVO vão se apresentando.
As músicas podem soar familiares para quem marca presença nos shows ou escuta os lançamentos da banda em streamings de música. Havia dois EPs até o momento: Meio da semana (2024) e Cotia (2025), além dos singles “TEUS OLHOS”, “PARE DE FALAR” e o recém divulgado “A QUEDA”.
O que já era recorrente nas letras da Resp3x, portanto, ganha mais espaço conceitual na forma de álbum: a ideia de transformação por meio de metáforas com escamas, pele, camaleões, nascimento e ressurreição.
Há qualquer coisa de animal nisso, mas também de humano — nascer, aprender sobre o mundo, detestá-lo e, em algum momento, decidir fabricar para si uma outra pele. Não exatamente para se esconder, mas para sobreviver à anterior. AINDA VIVO oferece pistas de que habita esse intervalo, o instante em que uma pele já não serve, mas a próxima ainda não terminou de se formar.
Talvez por essa inquietação constante, as músicas raramente pareçam completamente acomodadas em si mesmas. Há momentos em que o rap assume a frente, outros em que as guitarras parecem querer engolir tudo, passagens em que elementos eletrônicos dissolvem aquilo que vinha sendo construído. Instrumentalmente, uma coisa vai se desfazendo para que outra possa aparecer no lugar; mas há sempre um ponto em que tudo colide.
É o que acontece em “OUTRA PELE”, onde querem incendiar a cidade, passar sem serem vistos, mudar. E em “A QUEDA”, “COMEBACK” e “BAIK”, onde vozes e instrumentos disputam espaço pelo direito de ocupar o primeiro plano. Mas a Resp3x encontrou um jeito muito próprio de ser barulhenta. As guitarras podem se sobrepor às vozes, a bateria pode mudar abruptamente, uma melodia pode surgir no meio da distorção e, ainda assim, há uma espécie de harmonia na disputa.
Mas essa intensidade, em muitos momentos, parece existir no equilíbrio entre a distorção dos refrões explosivos e aquilo que vem antes deles. “Nova Lua”, “Cosmorigem RMX”, “Natural #5” e “sem_demora”, por exemplo, se apresentam com calmaria para, logo depois, desenvolverem a expansão sonora com ainda mais força.
E a banda também sabe pausar. “entre as peças...” chega a operar como trégua às sucessivas colisões, com uma letra que se permite falar de amor com mais calma e clareza. Embora, nem aqui as metáforas existenciais desapareçam completamente.
Tô caindo muito rápido
Nos olhos dela
Humana por inteiro
E muito diferente do que eu sou
Outras faixas parecem priorizar as experimentações pelo caminho antes de quererem, propriamente, aterrissar em algum destino. “Atrás da moeda” parte de um embalo próximo do hip-hop e do spoken word, avança para algo mais rock e depois desacelera novamente, como se testasse quantas formas diferentes uma mesma música pode assumir. “600202 (Cuidado)” reduz ainda mais essa necessidade de resolução. São poucos versos, elementos dispersos e uma estrutura mais dedicada à textura e atmosfera do que em oferecer uma canção facilmente apreensível.
E então tudo termina em “PARE DE FALAR”. Depois do ruído, da sobreposição, das vozes, das guitarras, das mudanças de forma, resta o desejo por silêncio.
Depois de entender essas músicas como faixas — como parte de um todo — alguns conceitos se aclaram, assim como algumas características da própria banda. Quando colocadas em determinada ordem, elas passam a dividir um mesmo espaço, acumulando sentidos que talvez estivessem menos evidentes quando foram ouvidas separadamente.
O palco ainda tem sua magia, claro, especialmente no caso de uma banda que construiu tanto de sua identidade diante do público. Mas há algo igualmente interessante em escutar o que acontece quando essas mesmas músicas ganham tempo para se relacionar entre si, sem a urgência de um show.
Apesar de ainda ser bastante fiel ao que a Resp3x alcança no ao vivo, o AINDA VIVO não sana o desejo de ouvir essa construção sonora em carne e osso, à beira do palco, em contato com tudo o que acontece ao redor. É possível que essa vontade até aumente.
No começo desse texto, eu disse que a maneira mais fácil de entender a Resp3x era vê-los ao vivo. Mas, talvez seja prudente acrescentar uma coisa: escutá-los nos fones também pode servir. Se o palco revela uma das peles da banda, afinal, o estúdio pode revelar outra. E arrisco dizer que eles ainda não terminaram a transformação.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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