E porque quem está por trás de um evento independente é, muitas vezes, quem também está à frente.

As portas se abrem, alguém coloca uma pulseira em nosso pulso esquerdo. Entramos e a única missão é aguardar em pé até o início do primeiro show. Depois, a adrenalina permite continuar até o último ato da noite, com intervalos para tomar um ar entre uma apresentação e outra. De pés cansados, saímos do local pela última vez e declaramos fim àquela noite. Daqui uma semana ou duas, repetimos a dose porque é tudo bom demais.
Enquanto embarcamos nesse ritual dos eventos independentes, figuras abstratas desatracam o navio chamado backstage. Deve ser isso que acontece, ao menos, já que quando estamos distantes da anatomia dos rolês, a parte operacional se enche de incógnitas. Por mais que haja esforço em entender que há uma porção de atividades detrás, ao lado, ou acima do palco principal, na prática essas tarefas – ou a divisão delas — tendem a ficar pouco claras. É só com um tempo mínimo de experiência que os processos operacionais se fazem familiares. Ou melhor, se fazem partes essenciais do imaginário de um show.
À luz dessa experiência, a divisão entre produção e artista no contexto independente é, na verdade, um pouco nebulosa. Quem sobe ao palco muitas vezes é também quem parte em busca de uma casa de shows, quem distribui as pulseiras, quem carrega os instrumentos, quem fica de tocaia na mesa do merch… enfim. É normal esse acúmulo de tarefas.
Qual é o percurso até se impor a presença sobre um palco? Como é pensada a combinação dos nomes em cada line-up? Como chegar às músicas que serão apresentadas ao vivo? Quais esforços, figurativos e literais, atravessam tudo isso? À Repeteco, as agitadoras da arte independente curitibana Selecta Manzana e Fernanda Maldonado abriram parte de suas experiências na tentativa de solucionar essas questões.
Quem conhece a infinidade de tarefas pré-show muito bem é a DJ e pesquisadora Márcia, mais conhecida como Selecta Manzana — ou Maçã. “Tocar em vinil exige corpo. Força nos bracinhos”, afirma, introduzindo a materialidade de um trabalho que, muitas vezes, pode parecer começar só quando a música soa nas caixas.
Manzana é figura central na discotecagem curitibana desde os anos 2000, unindo as performances ao papel de pesquisadora musical. Seu foco é na riqueza da música brasileira dos anos 1970 e início dos 1980, terreno que considera propício para resgatar experimentações rítmicas e diálogos com a diáspora negra.
“Grande parte dessa pesquisa acontece através do vinil. Os discos são documentos culturais riquíssimos: capas, fichas técnicas, selos, histórias de estúdio. Gosto muito de mergulhar nesses catálogos, descobrir conexões, perceber como essas gravações continuam vivas e como ainda há espaço para descobertas”, conta.
E para ela, a pesquisa ganha novas dimensões quando alcança os palcos e as pistas de dança. O anterior trabalho de escuta e investigação mais individualizado se choca com a mágica da recepção do público. Cria-se uma experiência coletiva. Os discos voltam a circular entre sets, encontram novos ouvidos e mostram que a música pode preservar história enquanto ajuda a criar novas memórias.
E essa preocupação com a investigação ajuda a provar que é muito antes do show que o trabalho começa. Em especial, ao dedicar-se às mídias físicas como os discos de vinil, é preciso considerar que parte do processo de preparação para um evento ainda envolve o cuidado em transportar as matérias-primas do som e os equipamentos pesados aqui e ali. Além, é claro, do contínuo curso de construção de narrativas que se deseja alcançar com a apresentação — ou discotecagem, neste caso.
“Tem muito tempo de escuta antes de um set. Separar discos, imaginar caminhos, pensar na energia de cada momento da noite. Também tem o cuidado com o acervo, a organização dos cases, testes de som (quando dá!). E existe algo mais invisível que acontece ali: a sensibilidade com o ambiente. Uma discotecagem é sempre um diálogo com a pista e com o espaço. O set vai se desenhando junto com as pessoas que estão ali”, explica.
E, como se não bastassem esses processos, Manzana aponta ainda para a metodologia das escolhas repertoriais. "Tem o trabalho contínuo da curadoria: garimpar, ouvir, estudar, reconhecer selos, artistas, histórias", enumera. Mas a DJ não nega as surpresas que surgem das particularidades de cada set.
“Eu penso o set como um fluxo de energia. Muitas dessas músicas compartilham raízes rítmicas, então gosto de ir costurando caminhos entre elas. Às vezes a pista pede surpresa; às vezes pede aprofundar um groove e ficar ali mais tempo. O mais interessante é quando o set deixa de ser só meu e passa a ser construído junto com quem está dançando”, completa.
Pesquisa, transporte, narrativa, curadoria. O mistério de como a performance se materializa no palco é até interessante, mas reconhecer os caminhos percorridos e a dedicação empregada em cada etapa de construção do som nos faz sentir um pouco mais parte do todo. Como se compartilhássemos um segredo — nós e a entidade no palco. A experiência fica mais encantadora, mais íntima.
As fabulações criativas, no entanto, só se completam verdadeiramente quando encontram o suporte da produção. Apesar de serem atividades diferentes, no mundo independente esses esforços andam juntos. Tão juntos que, muito comumente, apresentam fronteiras imprecisas, constantes convergências. Quem está de um lado também acaba atuando do outro, e vice-versa.
Mas, para introduzir parte das articulações que a produção de eventos exige, é mais do que válido considerar a experiência da jornalista e pesquisadora Fernanda Maldonado. Com presença marcante no cenário underground de Curitiba e afora, ela conhece bem a dualidade e as tensões que acompanham qualquer movimentação no espaço artístico independente.
“Não existe lugar melhor e pior simultaneamente, porque tem experimentalismo e tensão, prazer e dificuldade, diferentes fases dependendo dos atores sociais que se envolvem na cena”, comenta.
Ao dissecar os rituais da cena, entendemos que Fernanda é quem costuma lidar com aquelas etapas abstratas para quem vê de fora — ou, quem atua mais diretamente na concepção de uma condição de existência de espaços de valorização para a cultura. Isso perpassa esforços como negociações de espaço, alinhamento de expectativas e a resolução de imprevistos para garantir que o evento tenha estrutura e dignidade.
“Desde muito nova, o que eu faço é escutar, organizar, compartilhar música, às vezes obsessivamente, transitando por muitos gêneros. No fim, acho que é menos sobre performar e mais sobre criar condições para que algo legal aconteça. Já que não tenho nenhum compromisso profissional fechado nesse aspecto, tenho a liberdade de pensar formas e eventos que possam colocar a música de forma não comercial nos lugares, pela experimentação, pela troca, pela diversão em si”, explica.
Por carregar subjetividades, a produção dificilmente se resume à resolução de problemas operacionais. O envolvimento afetivo, de quem acredita e segue apaixonado pelo que constrói, antecede a idealização de um evento e sobrevive ao fim do último show. Em tempo, ainda é preciso disposição para descobrir artistas, acompanhar trajetórias, criar relações de confiança, imaginar encontros improváveis e sustentar ideias que, muitas vezes, parecem inviáveis.
E essa ocupação, em último plano, não deixa de ser um exercício de escuta: do público, dos músicos, do espaço e do próprio ecossistema. Sem compromisso com a curiosidade e com a construção coletiva, os eventos arriscam beirar uma mera sequência de apresentações — quando, na realidade, têm capacidade para serem ambientes perenes de pertencimento.
“Atuar no underground organizando ou endossando os rolês é botar a imaginação radical para jogo. Pensar no mundo em que queremos viver, nem que esse mundo seja um micro-mundo”.
Quem pesquisa também produz. Quem organiza também discoteca. Quem sobe ao palco também descarrega equipamentos, divulga eventos, vende merch, conversa com artistas e resolve imprevistos. As fronteiras entre criação e produção tornam-se difusas porque, muitas vezes, são sustentadas pelas mesmas pessoas. Esse acúmulo, claro, não deixa de revelar uma precariedade estrutural — fruto da escassez de recursos, espaços e apoio —, mas também evidencia uma forma particular de construir cultura, baseada na colaboração e na circulação constante.
Conhecer cada engrenagem que movimenta um show o desloca da noção de acontecimento espontâneo. Porque o que ocorre ali, afinal, é resultado de uma rede de trabalho, paixão e imaginação. E a resposta do público cativa mais quando se sente que é direcionada a todos que tornaram aquilo possível.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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