Entendendo os sons do mundo pelos visores robóticos de Daft Punk

Em 1961, um computador cantou pela primeira vez. Programado por Max Mathew, John L. Kelly Jr. e Carol Lochbaum, um IBM 704 conseguiu sintetizar a fala humana e cantar a música “Daisy Bell (A Bicycle Built for Two)” de Harry Dacre. A canção escolhida era uma simples cantiga infantil sobre o pobre amor do intérprete por Daisy, que, sem grana para uma carruagem, ele a imagina numa bicicleta de dois lugares.
“Daisy, Daisy, give me your answer do
I’m half crazy all for the love of you
It won’t be a stylish marriage
I can’t afford a carriage
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle built for two”
Harry Dacre, 1892
Titãs da música como o Daft Punk não precisam de uma introdução. O que Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter fizeram para a cena eletrônica foi magnânimo, impulsionando o french house e trazendo sonoridades até então undergrounds para o grande público. Mas… muitas vezes é importante ressaltar o óbvio. Portanto, caro leitor, ofereço minha mão para andarmos juntos e redescobrir o mundo que a dupla de robôs mais famosa da cena club criou.
Como sou o parceiro de jornada de quem lê esse texto, gosto de trazer algumas teses que não são necessariamente verdades absolutas. Dos quatro álbuns que o grupo lançou, separo em duas duplas: a primeira consistindo em trabalhos mais instrumentais e quase formalistas em Homework (1997) e Human After All (2005) e a segunda, um pouco mais melódica, com Discovery (2001) e Random Access Memories (2013). Mesmo tendo uma discografia bem coesa, é notável as diferentes estratégias criativas que foram utilizadas nos álbuns ímpares para os álbuns pares.
Homework surgiu a partir de músicas que a dupla cirou sem muita intenção de fazer um trabalho coeso. Num programa de rádio futurista, aqui vemos as primeiras características que vão ser aprimoradas e amadurecidas pelo resto do projeto. Gosto sempre de salientar como o uso de repetição nas canções permite que o ouvinte tire totalmente o conceito semântico e possa apreciar as texturas, modulações e sonoridade na fala.
A música é ultra processada, picotada, filtrada, distorcida e rearranjada, porém, esse artificial ao extremo não passa de um próprio reflexo da nossa humanidade. Toda a estética e temática futurista que a dupla implica não passa de um distanciamento necessário para entendermos o que somos. E isso não aparece só nas músicas cantadas, o próprio uso exacerbado de samples apenas demonstra um amor gigantesco que os robozinhos têm pela música eletrônica, a existência deles é uma carta de amor aberta à toda uma existência sintetizada anteriormente. Não é à toa que a música “Teachers” do álbum de estreia é um recital de produtores que os influenciaram.
“Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world
Around the world, around the world”
Daft Punk, 1997
Pulando o segundo álbum e indo direto para o terceiro, Human After All é uma chave para entender a lógica daftpunkiana. Dobrando a aposta e trazendo um som eletrônico muito mais exacerbado, não temos um arco narrativo ou cinematográfico. O álbum de 2005 é mecânico do começo ao fim e pega suas inspirações numa lógica mais industrial. MAIS repetitivo e MAIS robótico, ele não é o favorito dos fãs: com certeza esses blocos sonoros afastam o grande público. Mas são essas repetições extremas que permitem que as mudanças discretas sejam mais apreciadas. Sem muitos samples, é na presença do exagero que as ausências e as pequenas presenças são ampliadas. Nesse disco tem uma faixa de 6 minutos com uma voz modulada cantando a palavra “Emotion” repetidamente - acho que não preciso elaborar muito,
Ouvir Homework e Human After All e perceber os elementos da eletroacústica que percorrem as faixas só comprova a paixão que eles sentem pelos sons das coisas do mundo. Toda a lógica de colagem e a exploração de materialidades em suas músicas mostram um poder criativo com o trabalho não só dos outros, como da realidade do mundo contemporâneo. Obviamente desafia e tensiona questões como autoria, mas para mim isso demonstra mais e mais um caráter de paixão pela música
Parece paradoxal como um trabalho tão artificial e pautado nesses temas consegue trazer uma reflexão humana, mas para sintetizar todos esses sons foi preciso conhecer eles a fundo in natura. A natureza tem seus ritmos, suas melodias, harmonias e desarmonias e amplificando isso pela sintetização que Homem-Christo e Bangalter pautaram suas carreiras em conjunto.
Indo agora para os álbuns com músicas mais líricas como o Discovery e o Random Access Memory, há destaques na discografia por conter as músicas mais famosas do projeto. Mas, além dos sucessos como “One More Time” e “Get Lucky”, conseguimos ver faixas delicadas acerca da condição humana. De um lugar muito afetuoso, Discovery traz sentimentos pueris e sinceros. Como numa festa que se confessa tudo à pessoa amada, a pista de dança é o momento de declarações e vulnerabilidade, “Digital Love” é um sonho adolescente que já sabe sobre a crueldade que irá enfrentar mundo afora, mas que mesmo assim sonha. “Something About Us” é um exemplo claro do despir: frases simples e olhares sinceros são trazidas à vida pelas vozes filtradas e as cordas com efeito. É necessário distorcer para tudo parecer mais real.
Com uma aula de microsampling, “Face to Face” é outro destaque da banda. Junto de Todd Edwards, há mais de 70 sons reciclados de canções de diversos artistas. Em forma de alquimia, uma confissão extremamente pessoal é construída a partir de sons de outras pessoas. Emprestando aqui não as palavras, mas timbres, arranjos e áudios para demonstrar a intensidade de suas emoções.
No trabalho de Daft Punk, a pista de dança é um lugar seguro. Não necessariamente de alienação, mas de liberdade e esperança. Esse lugar onde todo mundo é igual, dançando, sentindo e podendo se expressar. Não só esse sentimento de segurança é trazido liricamente, mas também é proporcionado por eles em suas produções. O fato dos artistas responsáveis pelo duo não exporem muito suas imagens ligadas à banda despersonaliza: sem um corpo, sem uma face, conseguimos nos ver ali no reflexo de seus visores. O som precisa de materialidade para se propagar - de uma atmosfera, e é isso que foi construído durante os 28 anos de carreira do duo. É curioso como todas as respostas para os problemas daqui se resolvem numa pista de dança, se despindo de seus circuítos robóticos e expondo suas carcaças.
É de uma beleza espetacular como a vida e a música se cruzam nas canções, “Giorgio by Moroder” traz um monólogo do produtor italiano Giorgio Moroder (um dos responsável pela invasão da música eletrônica no pop com canções como “I Feel Love” de Donna Summer). Contando como sua carreira começou, ali sua experiência pessoal se mescla com o amor por essa nova música no horizonte - e momentos simples como os cliques do metrônomo para sincronizar as diversas faixas sintetizadas se intensificam. A discoteca era o lugar que ele ia e sonhava com os sons do futuro. Talvez hoje o futuro seja esse lugar de medo e ranger de dentes, mas nos anos 70 o futuro era reconfortante e esperançoso. Outro importante tema da faixa é a valorização da arte e vida: mesmo usando de alavancas, fios e teclas, a música eletrônica é fruto de uma vida que é indissociável de seu som.
Em 2021 Daft Punk anunciou sua despedida como duo. Apesar de triste, acredito que seus ruídos sônicos terão uma sobrevida muito mais longeva do que o período de atividades deles. Num anacronismo único, a vida pulsa pelo corpo de trabalho deles. Quando fiz a disciplina de Crítica Cinematográfica me deparei com o texto “A Arte de Amar” de Jean Douchet, ali Douchet coloca a crítica como um ato de amor que passa esse sentimento para frente. Bom, sou o crítico autor dessas palavras, mas acredito que os verdadeiros amantes dessa história sejam Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Banglater. Dois dos muitos responsáveis pelo meu gosto por música eletrônica, não escondem suas referências e inclusive tiveram o prazer de trabalhar com alguns mestres como o já citado Giorgio Moroder e o grande Nile Rodgers.
Infelizmente esse texto nunca vai conseguir trazer toda a intensidade das muitas músicas da banda-tema, seja por limitação minha ou da própria estrutura de um texto de Substack. Provavelmente deixarei sua música favorita de fora, mas tomo a liberdade de falar da minha: para comemorar os 10 anos de Random Access Memory, lançaram uma edição especial do disco com remixes, mixes e demos inéditas até então. Ali foi lançada a canção “Infinity Repeating”, demo escrita e cantada por Julian Casablancas. Irmã da música muito mais famosa “Instant Crush”, a faixa faz uma rima com sua contraparte numa tímida tentativa de auto reflexão. Enquanto Crush é sobre o contentamento com o fracasso, Repeating se vê cansada de um ciclo vicioso. Diferente das faixas da discografia que esconde a fragilidade numa sonoridade acolhedora e upbeat, Infinity Repeating é franzina, introspectiva na sonoridade e tira o ouvinte do conforto que a pista de dança sempre trouxe com uma bateria ruidosamente confusa.
It’s not right
It’s not true
It’s not how we used to do
O que fica póstumo do grupo, além dos lançamentos comemorativos, é uma legião de artistas que podem passar esse amor para frente. Destacando a saudosa SOPHIE que intensifica o amor pelos sons do mundo material ao utilizar de sons não convencionais em suas composições que também permitiu o nascimento de outros subgêneros eletrônicos que ditam o que está sendo lançado hoje em dia. Mas caso queiram mais indicações para aprofundar sua aventura sônica, é só ouvir o trabalho daqueles citados em “Teachers”. Enquanto tivermos humanidade e uma pista de dança o som de Daft Punk vive.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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