É difícil explorar o próprio processo criativo na música pop, mas não impossível

Desde que “Words” de F. R. David e “Pop Muzik” de Robin Scott foram lançadas e a música eletrônica infectou a música pop num caminho sem volta, diversos gêneros e subgêneros adotaram o uso de instrumentos, sintetizadores e características do eletro. E dentro da grande e importantíssima cultura pop vemos exemplos para cima e para baixo de hits em cima de hits usando a torto e a direito coisas que o Kraftwerk instaurou no meio do século passado.
Porém, um problema cabalístico nesse meio é que mesmo usando das estruturas desse gênero, não vejo muitos cantores famosos se interessarem necessariamente por ele. Um exemplo famosíssimo pode ser dado à Lady Gaga, que apesar de suas ótimas canções de sucesso esbanjarem do melhor que a sintetização sonora tem para oferecer, ela obviamente tem um interesse muito mais genuíno no jazz e no rock. Poucos exemplos saem dessa fórmula nos dias de hoje e podem ser considerados entusiastas artísticos de como mesclar o experimental com uma paixão verdadeira pelos elementos e estruturas pop. Temos, obviamente, a bratística Charli XCX e a pior garota do momento: Slayyyter.
Catherine Grace Garner (mais conhecida entre os gays como Slayyyter) vem de um pequeno subúrbio de St. Louis no Missouri e lança músicas desde 2018. No início de carreira muito influenciada por sua colaboradora Ayesha Erotica, foi o resgate de uma estética trash anos 2000 em esteróides que a destacou e a colocou na cena lado-a-lado de colegas como Charli XCX, Pussy Riot, Rebecca Black e Kim Petras - as quais posteriormente trabalharia junto. Assinou seus três primeiros projetos de maneiras mais independentes, seja em pequenas gravadoras ou em auto-publicação. Um dos primeiros singles, “Daddy AF”, se tornou muito famoso pelo temperamento explosivo - com direito até ao gemidão do zap - e apareceu em filmes como Bodies, Bodies, Bodies e o Oscar-winner odiado pela nação (mas não por nós), Anora.
Com uma mixtape autointitulada e dois álbuns de estúdio (Troubled Paradise de 2021 e Starfucker de 2023), o som de Slayyyter é muito inspirado nos sons da gravadora PC Music (2013-2024) e o revisionismo do pop anos 2000. Mas, havia em algumas faixas de seu trabalho uma questão única, um je ne sais quoi que não encontrei artista que faça parecido. “Self-Destruct”, “James Dean” e “No Comma” por exemplo, empregam elementos da música industrial em meio às batidas pop e vocais irritados. Eu apelidei esse tipo de música feita por Slayyyter de “pop-gay-industrial-puto” que eu acho mais adequado, mesmo sendo poucos os exemplos na discografia. Porém, a minha felicidade se tornou evidente ao ouvir os singles lançados pela artista em 2025, quando decidiu andar mais por esse caminho gay industrial etc etc para seu próximo álbum.
“WOR$T GIRL IN AMERICA” do ano do cavalo 2026 pode ser resumido na culminância da carreira de Slayyyter até então. É nítido que há um amadurecimento no que ela faz, no que ela gosta e que tipo de música ela quer trazer — que é de um frescor tão grande. Posso te garantir que como artista a coisa mais importante é tentar, ver o que deu certo (e o que não deu), fazer de novo e seguir nesse ciclo até sentir que aquelas ideias foram esgotadas. Infelizmente, a indústria de massa é muito dura e impede que artistas consigam experimentar, errar e revisitar trabalhos sem represálias. Por isso os anos independentes de nossa pior da América foram tão importantes. Podemos ver nesse álbum conceitos já trabalhados anteriormente mas que não chegaram ao auge. Não que os projetos anteriores sejam ruins, fora necessário lançá-los e amá-los para que aqui tenhamos o ápice de sua carreira: Slayyyter se achou.
I kinda hate you, but
It doesn’t matter, let me dance
“Eu quero sexo, dinheiro, putas e a mais pegajosa maconha” é o que nossa heroína (na falta de uma palavra melhor) deseja no lead single “Beat Up Chanel$”. Chegando com tudo, ela forma um quarteto de singles muito forte que mostram bem para o que o álbum veio, junto de “Cannibalism”, “Crank” e “Old Technology”. Conversando bem com o resto do álbum, as faixas promocionais adquirem uma coerência a partir do uso de sonoridades parecidas mas com elementos que trazem uma individualidade.
O que manda aqui é o sexo, as drogas e o que tem de mais sujo em sua criação no midwest norteamericano. Simultaneamente agressivo e irreverente, a intérprete revisita a estética dos becos, festas clandestinas e roupas falsificadas na qual cresceu - um contraste interessante com seu último álbum Starfucker que convoca o luxo decadente hollywoodiano. Enquanto lá ela usa das cirurgias plásticas e da cocaína para trazer um imaginário tão intocável, seu sucessor usa da maconha, bala e o que tiver pela frente para usar e se embriagar. A sonoridade do WGIA é suja como fumar na sarjeta, enquanto o Starfucker vai usar substâncias na área VIP ao som das mais crocantes batidas dos anos 80.
Ao passo que comparo os últimos dois discos, queria dar atenção a um par de músicas e ressaltar a questão de amadurecimento de ideias: “I’m Actually Kinda Famous” é um sucessor espiritual de “Erotic Electronic”. A ideia dessas canções serem um spoken word que explora mais da textura do que das letras sarcásticas faz pensar que, em 2026, vemos uma maturação da ideia inicial com mais camadas, como a influência do screamo e do heavy metal nos vocais.
Esse olhar para o estado de Missouri no qual nasceu se desenha um ato de autorreflexão durante esse trabalho. Violência, abandonos e um desejo constante de autoflagelação mancham as canções da carreira Slayyyter que aqui se intensificam: ela não abraça seu passado numa nostalgia infantil, mas sim entende da onde ela veio e busca seu florescer em meio a todos os erros, assumindo suas responsabilidades. Mesmo com desdém, ela não pode negar o fato que nasceu em “St. Loser, Misery”, mas pode quebrar esse ciclo vicioso na sua própria mudança.
Queria fazer um rápido detour de raiva acerca de comentários sobre esse álbum: vejo muita gente, ao falar de Slayyyter, referenciando outros artistas e trabalhos. É claro que ela se inspira nos primeiros álbuns solos de Gwen Stefani, M.I.A., Blackout de Britney Spears, early Lana Del Rey (da época do Lizzy Grant) e Justice. Mas, apesar dessa paixão ser clara nos projetos e entrevistas, acredito ser redutivo falar da artista tomando as referências como ponto de partida. Sei que vem da melhor das intenções, mas se a única coisa que você tem a dizer sobre uma arte é que ela se parece com outra você deveria prestar mais atenção naquilo que você aprecia.
It’s love, it’s love, it’s love
I say to myself when he doesn’t pick up
Levando em consideração o fato de que o disco mantém a energia sempre lá em cima, há dois momentos de muita fragilidade em “Unknown Loverz” e “Brittany Murphy”. Slayyyter brinca com a indústria de modo irônico desde seus primeiros singles, mas pouquíssimas vezes deixou a faceta de wor$t girl transparecer suas inseguranças (escancarando o fato que sua ultraconfiança ser um óbvio contrapeso dessa insegurança). E em WGIA não é diferente, as duas músicas supracitadas mostram as rachaduras cruas de sua máscara de porcelana sem revelar a real face nua.
“Uknown Loverz” trata de uma paixão sem saída com o DJ de “I’m Actually Kinda Famous”. Apesar dele claramente a odiar, Cathy vive uma fantasia cor-de-rosa de paixão trash americana. Em meio ao uso de drogas, ela ironicamente sonha acordada com esse homem que não chega nem a ser um personagem na música de tão distante e abstrato que ele se torna. Essa faixa é a única em que a energia diminui - ela tem uma melodia feliz em contraste às letras agridoces, a sonoridade, aqui, é abafada em sua própria ilusão.
Sabemos que relacionamentos complicadíssimos não são um tópico estranho à discografia de Slayyyter, mas é a primeira vez que a vemos realmente frágil. Ela não está com raiva como em “Over This!”, “Alone” ou “Starfucker”, que são ataques diretos aos então companheiros. Acabei de dizer o quanto detesto as comparações entre artistas, porém, acho interessante destacar um paralelo dessa música com “Heaven on Earth” de Britney Spears, também eletropop híper-romântico que, segundo as más línguas, foi gravado enquanto a intérprete chorava em seu estado recém-divorciada. Poucas vezes vemos uma ilusão tão sincera na música pop, esse titã é cruel e mesmo com uma persona forte e irreverente ainda podemos ver um ser humano que sonha tanto com um reconhecimento.
Já “Brittany Murphy” é uma despedida. Citando a atriz que morreu tragicamente, Cathy aqui fantasia seu próprio funeral num som muito similar a sua primeira mixtape - escolha essa que faz total sentido. A sonoridade contrasta totalmente do tom mórbido da canção. Em entrevistas, a artista comenta que esse álbum era sua última tentativa no cenário musical e esse desgaste emocional com o sucesso do seu próprio trabalho (ou a falta dele) é colocado em cheque na última faixa do disco. É explosiva, pesada e extremamente pessoal de um jeito que só a pior garota que já pisou na América poderia fazer. O fazer artístico é infeliz, e o “dar certo” é tão abstrato que é inimaginável. Falhar faz parte mas num mundo tão hostil você apenas pode se perguntar “Será que meu rosto é tão feio para um caixão aberto?”. Uma vontade de morrer desola esse disco, sempre mascarada pela sonoridade.
É importante pontuar que os endereçamentos ao seu pai nessa música revela uma outra fragilidade que também foi abordada em “Gas Station”. Ao ser abandonada num posto de gasolina por seu pai, ouvimos questionamentos sobre amor, lealdade e validação que esperamos dos nossos progenitores. Mesmo em meio a esses abandonos, Slayyyter termina o disco pedindo desculpas ao pai.
Father, please forgive me for all my actions
Failed in ways you couldn’t even imagine
Apesar do álbum terminar num tom sombrio, esse ensaio não terminará. Podemos levar o disco como um exemplo não só de persistência, como de amadurecimento e autoavaliação. Há, aqui, um incentivo a trabalhar com suas paixões. Slayyyter não só ama o que faz como também respeita seu próprio trabalho - ideações suicidas à parte. Há um nível de maturidade em Wor$t Girl in America que muito peixe grande da indústria ainda não alcançou.
É de extrema importância saber o que nos interessa fazer e que tipo de arte queremos defender — e a experimentação tanto de gênero, quanto de tom de Slayyyter me é muito cara. E fico muito feliz de vê-la alcançando palcos cada vez maiores. Se esse fosse o último álbum de Cathy, estaria muito satisfeito com essa trajetória, então nos resta apreciar seu trabalho (que, inclusive, está cuidadosamente destacado nesta playlist) e aguardar fervorosamente pelo que vem por aí.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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