Filme exibido no Olhar de Cinema faz questionar a realidade

Me questionar sobre o que ainda me faz ser humano em meio a uma caótica realidade definitivamente não estava nos meus planos hoje. Na última quinta-feira (11), no 15º Olhar de Cinema, foi exibido o filme Futuro Futuro, dirigido pelo cineasta Davi Pretto. O longa, situado em uma distópica e chuvosa cidade do Rio Grande do Sul, acompanha o personagem K em sua busca pela memória – literalmente. O enredo nos coloca, propositalmente, nos sapatos do protagonista ao não apresentar nenhuma introdução prévia sobre ele, seu passado e seu caráter. Logo de cara nos deparamos com a presença da IA (inteligência artificial) na história, entretanto, não da forma maligna “sci-fi” convencional a qual estamos acostumados. Aqui, a tecnologia não é personificada por robôs sanguinários e malvados da Skynet, mas sim por uma abordagem mais próxima da realidade que vivemos atualmente.
Ao longo do desenvolvimento da trama, vemos a IA tomando lugares similares ao que presenciamos em nossas vidas, como por exemplo, na identificação biométrica em câmeras de segurança e na escrita de textos. Em paralelo a isto, o longa retrata a marginalização social consequente do emprego dessas tecnologias, e aqui vive o foco da narrativa. As personagens com as quais passamos a maior parte do filme estão em uma parte segregada da cidade, onde vivem apenas os pobres e deslocados, a mercê de escassos recursos racionados e migalhas de oportunidades de trabalho que se resumem a solucionar pequenos problemas pontuais que a IA não foi capaz de resolver. Aos poucos, a tecnologia reduz a experiência humana apenas aos prazeres carnais, que também não deixam de ser afetados, visto que a população retratada no filme têm dificuldade até mesmo para formular e visualizar imagens em suas mentes.
O que realmente torna Futuro Futuro uma história tão tangível à nossa própria realidade, entretanto, são as metáforas exageradas. Assim que K adere a falsa ilusão de que faz parte da casta rica da cidade, percebemos o quão desumanizados os demais realmente são. O maior exemplo disso é o ciclo eterno de “fim do mundo” ilusório vivido pelos ricos, onde dia após dia festejam esperando a catástrofe natural que irá acabar com tudo no dia seguinte – e que nunca ocorre. É como se, de forma quase ridícula, somente aquelas pessoas tivessem o direito de ter um fim em meio a um mundo tão caótico. No momento em que K questiona esse loop, acaba por ser excomungado imediatamente de lá. Percebendo que a situação é muito mais profunda que a sua compreensão limitada pela amnésia é capaz de compreender, retorna ao local de onde veio anteriormente. É importante destacar também os visuais apresentados no filme, que, em várias cenas, faz apologias diretas a aqueles produzidos por IA, tendo aquela tradicional atmosfera estranha e dismórfica.
Futuro Futuro é um filme que definitivamente recomendo a todos, tanto pela narrativa quanto pelo que ele representa. Em contraste a Yellow Cake, filme exibido na abertura do festival, mostra que o cinema independente brasileiro é mais do que competente ao pisar no domínio da ficção científica e não depende de clichês ou receitas prontas para entregar uma obra consistente e reflexiva.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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