Sobre o álbum novo da Charli XCX, dos Strokes e suas lindas imperfeições

Você senta para ouvir um disco novo, talvez de algum artista que você nunca tenha ouvido antes, talvez de algum que você já é fã há tempos. Estranhamente, não clica de primeira… Parece que algo foge à regra, escapa das normas e, quando você tenta capturar esse algo, ele já correu pra alguma quina aberta no chão de taco de sua casa para bem longe da sua compreensão. Você… não gosta do que ouviu. Apesar dessa impressão inicial, algo naquela obra volta a te chamar, capturar sua atenção e, por fim, te faz insistir, insistir e insistir. Até que passa a entender e, por fim, amar.
Talvez esse tipo de experiência de insistência esteja cada vez mais rara hoje. Nos nichos musicais de rede sociais, a obra é vista a partir de uma ótica de consumo até mesmo por aqueles que se dizem seus maiores adoradores e entusiastas. Com tanta coisa lançando, tantos novos clássicos que algum fulano decidiu chamar de cânone de tal gênero em um Reels ou em um TikTok, a sensação que fica é a de que sempre se perde, nada se ganha. Existe uma pressa, quase que um anseio incessante, de ir logo para o X (ex-Twitter) causar alguma impressão acima de sua impressão sobre aquele novo disco ou sobre aquele clássico inegável. Tudo bem, acontece com os melhores de nós. Só não podemos esquecer que a insistência provavelmente foi parte crucial do que formou seu gosto e te fez chegar até aqui.
Afinal, onde moram as perfeições? Eu, particularmente, nunca as achei em lugar algum. Apesar de entender o apelo disso, é difícil discorrer sobre qualquer efeito positivo de tentar enumerar qualidades factíveis de alguma obra de arte. Reviews com números em sites como Rate Your Music ou Album Of The Year, algumas até mesmo dando notas para cada música individual, somando-as e depois tirando média para ver a nota do álbum… Isso não é grotescamente antiarte?
Talvez o mais prejudicial disso tudo seja perceber que, na minha experiência pessoal, as imperfeições levam ao interesse. E esse interesse sempre supera as buscas por uma tracklist perfeita.
Meu ponto é: muito provavelmente a maioria de minhas obras de arte preferidas são falhas. Sejam os personagens toscos no meu anime preferido, momentos maçantes de gameplay no meu jogo favorito ou os chamados “skips” nos meus álbuns mais amados, o que mais me chama atenção na arte nunca foi o intocável e o perfeito, mas a paixão que jorra do meio do bom, do mau e do feio.
Muito provavelmente, as SUAS obras de arte preferidas também vêm mais da emoção e do seu vínculo afetivo com elas do que de suas tentativas racionais de enumerar qualidades e defeitos.
Claro que você pode escolher consumir arte, mas um proveito analítico vem de um processo claro de degustação: você precisa se empenhar em saborear, capturar suas nuances e se esforçar para, no mínimo, entendê-la. Cada obra é contida em si e não é e nem deveria ser o que NÃO se encontra ali.
No último dia 24, dois grandes álbuns foram lançados por artistas em momentos delicados de suas carreiras. Music, Fashion, Film da Charli XCX é sequência de BRAT, seu álbum mais aclamado criticamente e maior sucesso comercial da carreira até agora, misturando com proficiência a nuance hyperpop da artista com o pop que ela sempre tentou fazer almejando o estrelato. Reality Awaits do The Strokes é sequência de The New Abnormal, álbum considerado por muitos a prova definitiva de que a banda não se perdeu no meio dos anos 2000 e que ainda consegue ditar tendências.
É difícil superar grandes feitos com todos os olhos te acompanhando e esperando por ainda mais. A pressão é inegável e, apesar de amado, a sensação é a de que não se pode errar ou decepcionar. A mera existência desses dois novos projetos seria interessante por si só, mas eles são mais do que a expectativa e a narrativa formadas ao seu redor. Sendo dois discos constantemente desafiadores, parece que a proposta de ambos é justamente gerar a ruptura ideal com o trabalho anterior, algo que com certeza choca inúmeros novos fãs e exige um esforço maior para entendê-los ou, até mesmo, aceitá-los.
Começando pela Charli XCX, talvez esse novo álbum seja seu mais experimental. Sendo considerada uma diva do hyperpop, tal nomenclatura não é estranha à estrela do pop versátil que ela é, mas também não deixa de ser valiosa por conta disso. Enquanto a artista surfava por entre vários produtores da PC Music e alavancava a estética sonora para um cenário mais popular, era possível escutar seus timbres e sua influência em diversos outros locais. Digamos que ela tenha sido a popularizadora dessa sonoridade caótica ultra polida, mas não exatamente sua catalisadora. O próprio BRAT, uma versão meticulosa e muito inteligentemente medida de todo esse lindo barulho, é exemplo claro disso.
Há tempos que a cantora diz em entrevistas sobre não querer recriar BRAT. Ela poderia se tornar confortável com a sonoridade que conseguiu fazer e que agradou milhões, mas decidiu seguir por um caminho contrário: Music, Fashion, Film foca nas guitarras para fazer justamente o oposto do que guitarras são conhecidas por fazer. O foco está no minimalismo e na meditação.
Aqui, as guitarras são manipuladas de todas as maneiras possíveis. Com mudanças de pitch, picotes no meio de suas gravações, travadas propositais e tudo o mais, a guitarra é utilizada muito mais como um instrumento virtual a ser manipulado do que como um instrumento orgânico. Por cima dela, a Charli decide cantar de maneira mais monótona, mais grave do que jamais cantou e, ainda por cima, se dá liberdades de desafinar de propósito, deixando sua voz quebrar. Com certeza a primeira impressão pode ser menos empolgante que a de escutar um “Everything is Romantic”, mas definitivamente não é menos interessante. Os singles desse novo álbum não foram exatamente adorados pelo público geral e, sendo sincero, nem mesmo por mim. Mas, ao se ter uma completa visão do contexto temático e sonoro do álbum, tudo cresce enormemente.
Isso porque uma certa “depressão” pós BRAT é fortemente palpável não apenas no contexto sonoro, mas em todas as letras que questionam o valor pessoal da artista e que questionam o mundo a sua volta. Começar a questionar seus próprios gostos - como a música, a moda e o cinema - é amplamente doloroso. Por entre arrependimento e amor pelo passado, o álbum apresenta um tato confessional que deixa o próprio BRAT com inveja.
Dividindo vocais sozinha com o baixo em “SS26” ou brigando com si sobre tudo que é ou não é em frente à dramáticas e barulhentas cordas em “I’m Afraid”, o álbum é mais uma prova do potencial artístico da Charli, que nunca fica confortável em uma única sonoridade. Apesar de não ser seu mais barulhento ou caótico, a experimentação aqui está justamente nesse silêncio improvável, nesse minimalismo vazio e desconfortável que torna o desajuste da nossa bad girl preferida em algo ultra relacionável e palpável. Talvez a pista de dança realmente esteja morta para a Charli. E qual o problema disso?
O disco encerra perfeitamente com uma profunda reflexão sobre a mortalidade e sobre a ambição de ser eternizado de alguma maneira nessa esfera que tanto nos importa, algo que provavelmente todo artista consegue se identificar com e que também é uma continuação lindíssima tematicamente vindo de toda a vulnerabilidade demonstrada no BRAT.
Um álbum sobre imperfeições poderia, de qualquer maneira, soar perfeito? Não seria isso uma traição da própria forma?
O novo álbum dos Strokes, Reality Awaits, já nasceu sendo amplamente odiado. A verdade é que o culto de personalidade ao redor do socialmente estranho Julian Casablancas não anda tão bem. Apesar do grandíssimo The New Abnormal, o icônico vocalista tomou e toma decisões muito estranhas publicamente: aparece todo consciente politicamente com um grande show do Coachella e em seus comentários em uma entrevista no metrô de Nova York, mas usa arte de IA na capa de seus projetos, troca mensagens diretas com fãs 25 anos mais novas e arranja briga com críticos que quase sempre estiveram do seu lado. Rumores sobre a relação dos membros dentro da banda começam a crescer e, antes do lançamento do novo álbum, o guitarrista Nick Valensi anuncia uma pausa temporária da banda, algo que nunca ocorreu antes durante um momento de lançamento. O grupo parece rodeado de mesquinharias e de uma imensa crise pessoal.
E… Acontece que o álbum é realmente sobre isso, de uma maneira ou de outra. Mas, de maneira voyeurística, também é essa mesquinharia confusa que torna ele tão potente. Reality Awaits NÃO é um ponto baixo na discografia dos Strokes, apenas tem escolhas estéticas que se distanciam daquelas que fizeram o público geral se afeiçoar pelo projeto passado.
Uma coisa pouco comentada sobre o auto-tune é que, ao corrigir deslizes vocais, você evidencia erros. Artistas que sabem manipulá-lo artisticamente cometem erros de afinação propositais nas gravações justamente para forçar o efeito desejado. Claro, é amplamente possível não gostar de como ele soa nesse álbum, sendo ultra robótico na maioria das aparições, mas não o dispense acreditando que sua aparição é puramente estética e não tem coesão temática alguma.
Em músicas como “Going Shopping”, o efeito apresenta o contraste temático perfeito quando se opõe às galopadas instrumentais e à letra que diz sobre a fuga da cidade e sobre uma obsessão capitalista. Em músicas como “Falling out of Love”, o auto-tune não dispensa falhas propositais na voz de Julian e, apesar de mascarar a crueza vocal, também evidencia a dor performática na entrega de uma música que reflete sobre um relacionamento passado e sobre seus destinos inevitáveis.
Ao meu ver, Reality Awaits é um álbum inteiro sobre erros e erros. Erros que, tematicamente, devem ser escancarados ao ouvinte. Erros grotescos, violentos, temíveis, não ignoráveis. “Dine N’Dash”, uma música com pouca presença do efeito que tanto afasta as pessoas desse disco, apresenta uma Outro ao fim em que Julian nunca soou tão desafinado. Para mim, o resultado estético de todo esse trabalho é bem lindo, na verdade. Sendo um cantor altamente referencial, Julian também parece usar de todas essas manipulações para gerar paródias propositais com jogos vocais familiares e com estéticas musicais conhecidas do imaginário estadunidense.
Na silenciosamente épica “Liar’s Remorse”, a entrega vocal ultra teatral parece zombar um tanto da própria narrativa dramática que o cantor nos força a embarcar, com palavras proferidas nessa inflexão caipira e quase country, épica. Em “Lonely in the Future”, que claramente contém os momentos líricos mais toscos do projeto todo, o efeito acentua inflexões vocais que claramente são referências a um protopunk caricato. Inclusive, essa música contém alguns dos instrumentais mais interessantes do disco: a guitarra solo por vezes me lembra o timbre de sintetizadores presentes em “Troubles” do Denzel Curry com T-Pain, uma relação completamente improvável.
Não consigo deixar de achar toda essa exploração profundamente interessante. Apesar de doloroso e mesquinho, esse álbum demonstra uma liberdade artística inegável. Eu já lia The New Abnormal como uma confissão de “é, estamos velhos, saímos de moda, somos o novo anormal”. Reality Awaits parece ser essa confissão completa. Eu adoro. Não é legal ver um de seus artistas preferidos rumando campos distantes, desertos, em cima de seu cavalo solitário?
Ambos os discos discorridos são, no momento, muito divisivos. O do Strokes mais odiado que o da Charli, mas os dois têm em sua apresentação algumas decisões estéticas que afastam pessoas conquistadas por seus antecessores. Todo o barulho clubber pop de BRAT dá lugar a guitarras curiosamente minimalistas em Music, Fashion, Film, enquanto a doçura melancólica e linda de The New Abnormal abre espaço pra explorações vocais vulgares e escancaradas em Reality Awaits. Nenhuma decisão artística diminui a outra e, na minha opinião, quanto mais me sinto desafiado a desvendar algo, mais gosto e mais tenho interesse.
A questão é que, para além do som, a temática e a trajetória dos artistas também contam profundamente para o aproveitamento dessas obras, implicando em uma barreira que, muito provavelmente, afasta novos ouvintes e até mesmo o ouvinte casual. Como dito acima, se você se enquadra nessa categoria, não há nenhum problema, mas creio piamente que, para aqueles que tentam escutar música de maneira mais profunda e atenta, ainda falta atenção e esforço. Não apenas no caso desses dois discos, mas em vários lançamentos recentes, independente do tamanho dos artistas que os produziram ou de sua relevância cultural. O desgosto de algo exige uma certa argumentação que, querendo ou não, precisa superar o raso e dar as caras.
E, para aprender a amar a arte, é necessário superar um tanto de orgulho, abandonar um tanto do ego. Nunca chegaremos a um momento da vida onde teremos total conhecimento de tudo, não importa a bagagem. Mesmo que você não goste de algo logo de cara, determinar que aquilo não é e nunca será feito para você é… Mesquinho (igual ao Julian Casablancas. Você quer mesmo ser igual ao Julian Casablancas?). Revisitas àquelas mesmas obras, refinações do gosto pessoal e, principalmente, um coração aberto a essas experiências. Talvez a coisa mais fatal do envelhecimento seja a perda da doce ingenuidade, da inocência que tanto nos atrai a descobrir o novo.
Seja um pouco inocente também, se atraia, se esforce.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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