Uma dobradinha Repeteco – sobre álbum e clipe, com direito a entrevista

Em meados de 2024, durante o primeiro ano da Revista Repeteco, uma das primeiras bandas que nos deu atenção foi a sorosoro, de Blumenau (SC), composta por Pedro, Caio, Miguel, André e Eloin, amigos que se unem em uma sintonia incomum; uma banda de 3 guitarras, um baixo e uma bateria.
Nos privamos de uma introdução formal pois já fizemos isso, mas parte importante do que será tratado no texto de hoje, além de celebrar as novidades, é a identidade enquanto cena de algum lugar. Frisamos em 2024 que a sorosoro representaria o cenário musical de Blumenau. Parafraseando nós mesmos:
“Existe uma dificuldade para os músicos de Blumenau consolidarem uma cena underground do rock alternativo. A escassez de lugares para se apresentar e a falta de oportunidades nas poucas casas de show que existem na região forçam os músicos a organizarem seu próprio rolê: correndo atrás de shows, garimpando espaços que possam acomodar os eventos e divulgando pela cidade afora seu trabalho”
Fato é que, em dois anos, a sorosoro conseguiu realizar parte dos seus anseios. Após trazer a banda duas vezes para Curitiba, em três shows (incluindo nosso Repeteco de Bolso), chegou o momento de falar sobre Eu e Você ou Tudo o que Eu Não Quero Que Você Saiba, álbum de estreia da banda catarinense. E há, ainda, mais um motivo especial para este texto: o lançamento exclusivo Repeteco do videoclipe de “Eu Não Aguento Mais”, dirigido por Felipe Hering. Para tudo isso, entrevistamos Pedro Museka, vocalista e um dos guitarristas da sorosoro, para entender o processo criativo do álbum, do clipe e dos próximos passos do grupo.
Como antecipado, a banda conta hoje com cinco músicos divididos em três guitarras, um baixo e a bateria. Mas, se você nunca ouviu o som deles, não há um “rótulo certo” para colocar o grupo, de acordo com Pedro. Parte rock progressivo, parte noise, parte shoegaze, parte post-rock e parte slowcore, a sorosoro se encontra entre arranjos experimentais e a dinâmica de guitarras, no que Pedro descreveu ser um dos maiores desafios enquanto banda: encontrar um espaço para cada instrumento sem transformar o palco em um “lamaçal bizarro e incompreensível”.
Enquanto fazia minha pesquisa para não só escrever esse texto, mas para a entrevista com a sorosoro, me deparei com um post no Reddit do início deste ano na comunidade r/MusicaBR, chamando a atenção para a “falta de identidade do rock catarinense”, que se encontrava na sombra do rock gaúcho e do domínio da mídia tradicional. Naquele post, o autor chamava a atenção para a sorosoro como um dos pilares de “renascença” da identidade estadual. Perguntei então para Pedro se ele concordava com aquilo dito e se a banda conseguia se ver como parte da identidade de Santa Catarina.
PEDRO MUSEKA: Querendo ou não, independente do estilo, as bandas catarinenses compartilham e se encontram, além da proximidade geográfica, na influência do rock gaúcho, muito em razão do Grupo RBS e da rádio Atlântida. Enquanto cada estado possui uma emissora da Rede Globo para chamar de sua, Santa Catarina compartilhou a RBS com o Rio Grande do Sul até menos de 10 anos atrás, e a rádio desse grupo era a Atlântida, que valoriza músicos gaúchos. Então nós crescemos escutando o que tocava no Planeta Atlântida, que é o festival anual da rádio, as bandas e artistas gaúchos que costumeiramente não chegam em quem é de São Paulo ou do Rio, como Bidê ou Balde, Acústicos & Valvulados e Cachorro Grande, que tiveram um Acústico MTV para chamar de seu. Replicantes, TNT, Júpiter Maçã, Os Cascaveletes, tudo que é rock gaúcho influenciou quem cresceu dos anos 80 pra cá em Santa Catarina, mas acho que essa é a maior do rock catarinense, o quão diferente as bandas são entre si, cada uma com suas valências. Uma coisa que não dá pra acusar a cena daqui é de ser homogênea. Olhando para as bandas daqui, tem muita coisa boa e nós sempre estamos compartilhando os mesmos espaços com Torvelim, Carmino, Exclusive os Cabides, Tapete Tapete, Adoráveis Clichês, cada um com direções diferentes justamente porque crescemos longe um do outro.
Em 2024, quando questionamos sobre as principais influências da banda dentro do cenário musical, os nomes citados eram principalmente Sonic Youth e Pavement. Questionado novamente dois anos depois, Pedro Museka ampliou o escopo de referências, dizendo que a estética dos anos 90 ajudou a moldar a sorosoro, incluindo som e identidade visual. Entre artistas nominalmente referidos, além das duas bandas já citadas, estão Pixies, Dinosaur Jr., Wilco, Neil Young e Yo La Tengo.
Esta última também se tornou referência no que tange a liberdade artística da sorosoro. Pedro nos contou que muito da fluidez nos palcos da banda catarinense vem das apresentações ao vivo da Yo La Tengo, que mescla sets barulhentos e shows acústicos e intimistas, algo que pode ser provado por experiência própria de quem vos escreve, que esteve presente em dois shows da sorosoro em Curitiba em dias seguidos — um set no Camaleão Cultural de cerca de uma hora mais voltado para o noise e uma apresentação pocket, de fato mais intimista, na Itiban, mantendo parte da setlist original mas com uma pegada diferente, algo que é preciso sentir para fazer sentido, palavras não bastam.
Ainda sobre os shows da sorosoro, parte do que transforma a experiência são os arranjos e a técnica não convencional. Inspirado em grupos como o Sigur Rós, de acordo com Pedro, a banda gosta de usar métodos pouco usuais, incluindo arco de violino e chave de fenda para tocar guitarra, além de outras técnicas de slide que mudam completamente o jeito de escutar o instrumento.
Outro fator que inspira o trabalho da sorosoro é a estética Do It Yourself (DIY), o trabalho analógico que tenta rejeitar o excesso digital, alinhado ao que ele chama de “anos 90 slop”, ao cenário alternativo dos anos 90. Pouco do que influencia a criação artística da banda catarinense vem de coisas puramente digitais ou eletrônicas. De acordo com Pedro, o trabalho manual e a valorização do imperfeito se estende à questão estética da banda para além do musical, fato comprovado pelo frequente uso de colagens em divulgações, sem se prender (assim como na parte musical) a pós-produções complexas.
Para finalizar essa parte (re)introdutória, é preciso destacar também outros projetos mencionados por Pedro Museka na entrevista, como a influência do slowcore noventista de Duster, Galaxie 500 e Low, que inspiram fortemente as composições do grupo. Ele ainda nos conta que existe uma amplitude nos gostos musicais dos membros, brincando que André Muller, o baterista, fã de indie rock como Arctic Monkeys, muito provavelmente não liga para as outras bandas anteriormente citadas.
Formada em 2021, a sorosoro não contava com um álbum para chamar de seu até março deste ano. O EP sorosoro de 2022 foi o mais próximo disso, contando com 6 faixas, mas os outros lançamentos até então eram todos em formato de single, como anêmica, TCC e o cover de Errare Humanum Est. De acordo com Pedro, foi um processo de maturação longo e difícil, exponenciado pela falta de recursos. Ele nos contou que a banda começou a ensaiar em uma casa de madeira no terreno da avó dele, e com o tempo foram acumulando equipamentos, conhecimentos e espaços de ensaio mais adequados.
O que possibilitou o lançamento desse ano foi a aprovação em um edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), que previa a gravação de um EP, que a banda decidiu em conjunto por transformar em um álbum completo, tirando dinheiro dos próprios bolsos para realizar esse sonho. Foi assim que surgiu Eu e Você ou Tudo o que Eu Não Quero que Você Saiba, lançado no dia 13 de março de 2026 nas plataformas digitais.
Com 11 faixas e cerca de 50 minutos, a maior parte das composições do álbum já existiam há anos, datando até mesmo do primeiro show da banda a quase 5 anos atrás. Mas, como foi dado a entender antes, nada que envolve a sorosoro está para sempre “sedimentado em pedra”. Por isso, com a ajuda do produtor Ariel Felipe, o disco foi lapidado e retrabalhado em pós-produção. De acordo com Pedro, apenas três faixas eram totalmente inéditas, ou seja, mais da metade da gravação já existia e já havia sido tocada em shows anteriormente. As três músicas inéditas são, na verdade, quatro: as duas versões de Anna Liz, Ficarei Olhando Até que Me Entendas e Uma Rapidinha Antes que Gameciel, o Kaiju Tartaruga Marinha, Tribute a Velha Central.
PEDRO MUSEKA: Anna Liz tem uma versão acústica que é mais parecida com o que a gente tinha na demo original e uma versão full band que veio a partir de nós brincarmos no estúdio em cima dela, em cima de outras referências que estávamos pirando na época como Wilco e Horsegirl.
Alinhado diretamente com a raiz DIY da banda, a capa, que retrata dois cachorros no que parece ser uma floresta, é na verdade uma pintura à óleo feita por Mariana Marte, uma amiga da banda que mora no Rio de Janeiro.
Questionado sobre qual das músicas do álbum é a favorita dele para performar ao vivo, Pedro Museka nos revelou ser um empate técnico entre Anna Liz e Eu e Você Como Alegoria Para a Guerra Fria. A primeira por ser uma composição limpa em uma dinâmica minimalista e maximalista ao mesmo tempo, contando com três solos de guitarra e um tom mais “chiclete”. A segunda por ser mais emotiva, descrita por ele como “a mais Neil Young” do álbum” (além de contar com um solo próprio).
A dobradinha citada na linha-fina do texto se trata do lançamento, em parceria com a Revista Repeteco, do videoclipe de Eu Não Aguento Mais, música que figura no álbum de estreia da sorosoro e agora ganha uma versão audiovisual para chamar de sua. Quando questionamos Pedro sobre a escolha desta faixa em específico, ele citou ter sido a música da banda que figurou na playlist AltBR do Spotify, que trouxe mais olhos para o grupo catarinense.
Pedro conta com carinho sua relação com essa música, que figura na setlist da banda desde o primeiro show a anos atrás:
PEDRO MUSEKA: É uma música que eu tenho muito carinho pela letra dela, ela veio de um lugar, um sentimento parecido com trabalho. Talvez lendo a letra dê para imaginar a tensão entre um casal, uma coisa mais amorosa ou sobre não saber o que esperar do seu parceiro, que considero uma interpretação super válida, mas, falando por mim, essa música veio de não saber como lidar com as expectativas do trampo, tipo, o que meus superiores esperam de mim?
O clipe foi gravado em uma tecnologia novamente condizente com o mantra DIY citado previamente: a câmera super 8, que captura de 18 a 24 quadros por segundo, ou seja, o clipe é uma grande coleção de fotos analógicas capturadas por uma máquina feita para isso, cuja capacidade de armazenamento raramente passa dos 5 minutos. Para tanto, a direção do clipe ficou com Felipe “Felpo” Hering, que também trabalha como ilustrador gráfico.
Ainda que fosse um grande sonho da sorosoro gravar um clipe em super 8, este só foi realizado por causa de Felpo e de seu azar (ou sorte). Pedro nos contou que o ilustrador tinha adquirido uma super 8 para fazer parte de seu arsenal de trabalho, visto que ele também era freelancer do audiovisual. Desde o primeiro momento, os dois estavam tentando combinar alguma produção utilizando a câmera, que não havia acontecido ainda porque um rolo de super 8 é extremamente caro.
Felpo, então, estaria em um de seus trabalhos como freelancer e a câmera travou, que o deixou em uma situação complicada pois, por ser analógica, não poderia ter certeza que seu dia de trabalho havia valido algo. Não dava para abrir a câmera pois queimaria o filme, da mesma forma que se ele rebobinasse o filme para revelar e não tivesse capturado nada seria um desperdício gigante. Foi então que ele fez uma proposta para a banda, dizendo que ele tinha uma câmera e um filme que ele precisava revelar até no máximo uma semana, filme este que ele não sabia quanto ainda estava disponível para gravação.
Em uma situação engraçada, se desse errado a gravação do clipe da banda, seria sinal de que o trabalho de Felpo havia dado certo e vice-versa. Sem nada a perder, a sorosoro combinou de se encontrar no final de semana com o ilustrador no Parque das Nascentes, em Blumenau, para realizar a gravação. Naquela semana havia chovido todos os dias, mas naquele sábado não, foi um dia quente de bastante sol, condição elementar para que a filmagem tenha ocorrido como planejado.
Cerca de um mês depois, chegou o resultado do rolo revelado da super 8, mostrando que toda a gravação do clipe tinha dado certo, o que significa que o trabalho anterior de Felpo não tinha sido capturado, mesmo. Pedro então sugeriu a Felpo que o ilustrador poderia aproveitar as filmagens para inserir seu traço, sua animação frame a frame, transformar em um verdadeiro passion project, que ele topou na hora.
E foi assim, editando entre um trabalho e outro, após um mês de espera para a revelação e mais um mês de trabalho de tratamento de cores e animação, que surgiu o videoclipe de Eu Não Aguento Mais, uma espécie de single pós-estreia do álbum da sorosoro. Fique agora então com o lançamento exclusivo Revista Repeteco do clipe de Eu Não Aguento Mais:
Para o futuro, a sorosoro tem planos bem traçados que envolvem uma transição de sonoridade, novos lançamentos e um período mais focado em estúdio do que na estrada. Pedro nos revelou que a próxima estreia da banda é a de um EP de country rock, que já foi gravado durante o mês de julho em um período de isolamento na cidade de Ibirama, interior de Santa Catarina.
PEDRO MUSEKA: A gente levou todo nosso equipamento do estúdio para lá e gravamos todo esse EP em um final de semana com músicas que não entrariam no conceito do LP2. É um EP bem inspirado em country rock e alternative country, inspirado principalmente em Wednesday, MJ Lenderman, Wilco, Drive by Truckers, Lucinda Williams, além do mais clássico mesmo, Johnny Cash, Willie Nelson, o próprio Neil Young. Serão 5 músicas, mas não tem nem nome ainda, se tudo der certo nós lançamos no final do ano ainda, mas sem pressa, estamos trabalhando nele ainda.
O segundo álbum da banda também já está em desenvolvimento, descrito ainda como fase de composição, uma fase anterior a pré-produção. De acordo com Pedro, o objetivo é buscar uma transição da banda para o power pop, inspirado nos grupos de rock dos anos 60, como Beatles, The Kinks e Velvet Underground. Trata-se de uma mudança relativamente extensa entre a sonoridade e a estética do primeiro para o segundo disco, porém, a meta da banda nesse momento é buscar editais públicos para viabilizar uma produção mais estilizada, mesmo que o atual produtor da sorosoro continue envolvido no projeto como engenheiro de som.
Por fim, questionado sobre a agenda de shows, Pedro, representando a sorosoro, disse que é um momento de um calendário mais reservado, já que a primeira metade do ano foi focada em shows e turnê para divulgação do álbum. Agora é momento de focar em pós-produção do EP. Isso, porém, não significa que a banda ficará sem fazer shows. Há o desejo de voltar esse ano ainda para São Paulo e Curitiba, além de estarem negociando datas para shows no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, São Leopoldo e talvez Caxias.
Publicado originalmente por Revista Repeteco.

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